IPB no caminho do sonho de mudar um país

Alunos do Bangladesh chegaram a Bragança com o apoio da Fundação Maria Cristina, a primeira portuguesa a chegar ao topo do Everest, que usa os recordes do Guiness para financiar a educação de 600 crianças. Os primeiros dez a estudar no Ensino Superior Superior chegaram agora a Bragança.
“Quando tinha sete anos, só pensava em sobreviver a cada dia que passava. Não tinha sonhos. Depois, apareceu a Maria Conceição e deu-me um sonho, fez-me acreditar e é por isso que vim para Bragança tirar um curso. Quero voltar ao Bangladesh e ajudar a melhorar o meu país.” A garantia é deixada por Mustofa, um dos dez estudantes do Bangladesh, que acabaram de chegar ao Nordeste Transmontano. Com um brilho nos olhos e emoção na voz, surpreendidos pelo serpentear das montanhas que envolvem a cidade de Bragança e apanhados desprevenidos pelo frio cortante que o outono começa a trazer. Foi assim que dez estudantes do Bangladesh chegaram a Bragança, depois de uma grande aventura para conseguirem “uma oportunidade por que milhões anseiam” no seu país, mas que a eles sorriu. Mustofa ainda mal consegue acreditar na volta que a sua vida deu. Foi uma das 600 crianças que nasceram num bairro de lata de Dhaka, capital do Bangladesh, que outrora foi parte integrante da Índia, primeiro, e do Paquistão, depois, a quem foi dada a possibilidade de estudar, graças ao esforço e perseverança de uma portuguesa (ver caixa). Ao longo de 12 anos, a Fundação Maria Cristina custeou os estudos a estas 600 crianças e, agora, chegaram a Bragança os primeiros dez que têm a oportunidade de abraçar o ensino superior. Bragança foi o destino escolhido. Na bagagem, trouxeram sonhos e um objetivo claro: “tirar o curso para voltar e ajudar o meu país a desenvolver-se”, dizem, à vez, mas em uníssono, Hossain, Abedin e Mustofa. Estes são apenas três de um total de dez estudantes do Bangladesh que conseguiram o visto e vaga no Instituto Politécnico de Bragança. “Estava previsto que viessem 18 mas oito deles ficaram impedidos devido ao processo burocrático”, explicou ao Mensageiro Hélio Silva, voluntário da Fundação Maria Cristina, responsável pelo encaminhamento do grupo. “A embaixada portuguesa mais perto de Dhaka é em Nova Déli, na Índia. Para irem pedir o visto português, têm, primeiro, de ter um visto de entrada na Índia e oito deles não conseguiram”, disse ainda.
As expectativas dos estudantes também vinham altas, mas nada que se compare ao que encontraram em Bragança. “É muito superior ao que imaginávamos”, diz Abedin, radiante. Os três que falaram ao Mensageiro vieram tirar Engenharia Informática, tal como três outros colegas, enquanto os restantes quatro estão matriculados em International Business Manadgement. Entre eles, há os que sonham criar uma agência espacial do Bangladesh, como é o caso de Hossain, ou aqueles que sonham mudar o país pela política e chegar a primeira-ministra, como é o caso de uma das últimas alunas a chegar. Pelo caminho, ainda aproveitaram para vender alguns livros sobre a história de Maria da Conceição, a sua patrona, para “ajudar a financiar a educação dos que ficaram”, explicam. Para estes jovens, os sonhos “vão até à Galáxia”, dizem, entre sorrisos. A ansiedade pelo que iriam encontrar só foi aumentando ao longo das 40 horas da viagem para Portugal, com escala no Dubai. Daí até Lisboa demoraram quase tanto como de Lisboa a Bragança, de autocarro. Mas não se queixam. Aliás, nunca se queixam.
“A paisagem é espetacular. Quando pesquisámos sobre Bragança na internet não nos apercebemos que havia tantos montes. Só quando começámos a ver o autocarro a subir e a descer”, recordam, divertidos. Dos habitantes locais, o espanto pelo civismo, sobretudo no trânsito. “Na nossa cidade, o trânsito é caótico. Os carros sempre a passar, a correr, cada um a meter-se à frente para passar. Aqui não. Até param para deixar passar os peões”, conta um surpreendido Hossain. Habituados às temperaturas amenas, a chegada do outono ao Nordeste Transmontano fez com que fossem apanhados
desprevenidos com o frio. Por isso, contaram com o apoio da Caritas Diocesana, que forneceu roupas de inverno.
“Vi neles uma atitude diferente. Estão a ser ajudados e querem retribuir. Ofereceram- se para serem voluntários na instituição”, explicou Cristina Figueiredo, a diretora geral. “O que não escolheram dobraram e arrumaram a roupa. Para já, a integração está “a correr bem”, dizem. O Bangladesh é apenas um dos 70 países que têm alunos no IPB. Um projeto de internacionalização “que é um exemplo a nível nacional”, defende Luís Pais, vice-presidente da instituição. “Este ano estamos a pensar atingir os 2400 alunos, quando no ano passado ficámos ligeiramente abaixo dos dois mil”, explicou ao Mensageiro. Cerca de 30 por cento dos alunos que frequentam o IPB são estrangeiros, ou seja, quase um em cada três.
“Este crescimento é o resultado da nossa aposta. É um projeto único a nível nacional pela dimensão que atinge”, frisa Luís Pais. Um dos “bons problemas” que esta situação coloca é a pressão sobre o alojamento.
“Esperamos que a sociedade civil responda. Nós não vamos aumentar a nossa oferta. É o contributo do IPB para a sociedade”, explica. O mesmo responsável acredita que “ainda há lugares disponíveis” e “seria ótimo que também pudessem ser disponibilizados para aluguer”.

Publicado por: “Mensageiro de Bragança”

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