Maria da Graça Afonso, 76 anos, de Agrochão, no concelho de Vinhais, é uma antiga professora primária que trabalhou em quase todo o distrito de Bragança, tendo terminado a carreira em Agrochão. É uma das duas avós que integram o projecto-piloto “Viva@avó” que o Instituto Politécnico de Bragança tem em curso através da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela (EsACT). A outra é Lucinda Veloso, de 60 anos, que vive em Vila Verde da Raia, Chaves. O projecto-piloto arrancou com as duas, mas o objectivo é que o número aumente para seis avós e que abranja toda a região transmontana.
Quando explicaram a Maria da Graça o projecto em que a pretendiam integrar ainda pensou que “era para dar receitas de culinária”. Depois foi percebendo que era muito mais abrangente, que é importante para fazer o levantamento do património, sobretudo imaterial, e chamar turistas à terra.
Com o ‘Viva@vó’ pretende-se aproveitar o que há de melhor em Trás-os-Montes: “as pessoas, os seus hábitos, usos e costumes”, salienta Luís Pires, director da EsACT, enquanto a coordenadora do projecto naquela escola, Aida Carvalho, nota que “esta é uma excelente oportunidade para fazer o levantamento do património imaterial e partilhá-lo com os turistas”.
A função da antiga docente será apresentar a quem a procurar “o que há de melhor nesta aldeia”. Garante que “os turistas serão sempre bem acolhidos, porque as pessoas aqui são muito hospitaleiras”. E passando eles a ficar umas horas na companhia dos locais, “também se foge um bocadinho ao isolamento em que vivem”.
Maria da Graça tem andado a elencar o património que vai recomendar a quem a procurar, mas pensa que a melhor forma de começar é explicar a designação da sua terra, Agrochão: “provém da palavra Agrochano, que significa terra boa. Ou seja, agro (terra) e chão (bom)”.
Depois, a antiga professora dirá que é obrigatório conhecer os museus, o etnográfico e o do azeite, o santuário do Senhor da Piedade e o da Senhora do Areal, a Igreja Matriz com o padroeiro São Mamede e as várias lendas que ela passou para um livro, como a do caúnho e a da fonte milagrosa que “corre gota-a-gota e nunca seca”. Para confortar o estômago dos turistas poderá sempre confecionar “couve guisada ou alheira na brasa com batata e grelos cozidos, tudo bem regado com o bom azeite e o bom vinho da terra”. Mas o turista não vai só comer. Vai participar na construção do espaço onde vai ocorrer a refeição, viver na aldeia durante umas horas, conhecer pessoas, participar também noutras experiências e ouvir histórias.
Toni Gomes, o presidente da Junta de Agrochão, está convencido que este projeto vai ser muito importante para dar a conhecer a terra que dirige. “Temos de divulgar o nosso rico património”, sublinha.
Mas também é uma forma de unir a povoação em torno dele. Maria da Graça já estava habituada a que os jovens se “afastem das iniciativas dos mais velhos” e deu por si a vê-los “mais integrados neste projecto”. “É bom que eles se aproximem das gerações mais antigas, porque assim aprendem connosco e nós com eles”, sorri.
O projecto “Viva@vó” resulta de uma parceria entre o Instituto Politécnico de Bragança, o Instituto Politécnico de Viana do Castelo e a empresa A. Montesinho. Tem o apoio do Portugal 2020 e da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Publicado por: “Jornal Nordeste”
