Governo dá luz verde a doutoramentos nos politécnicos

Quatro meses depois de o Governo ter aberto a porta aos doutoramentos no Ensino Superior Politécnico, o Conselho de Ministros aprovou, esta quinta-feira, as regras para que tal venha a acontecer.
Uma delas exige aos politécnicos fazerem prova de produção científica na área em querem ter doutoramentos. O Parlamento tem agora a última palavra.
Os politécnicos viram ser dado mais um passo no sentido de virem a atribuir doutoramentos, pelo qual se têm batido há vários anos e que continua a ser um exclusivo das universidades. O Conselho de Ministros aprovou, esta quinta-feira, um pacote de medidas para a modernização do Ensino Superior, onde se inclui tal desbloqueio com uma nova Lei de Graus e Diplomas.
Ainda assim, esta alteração não é imediata e depende do Parlamento, já que exige mexidas no Regime Jurídico das Instituições de Ensino.
De acordo com informação disponibilizada pelo Ministério do Ensino Superior ao JN, o documento surge “na sequência da apresentação do relatório de avaliação da OCDE, no dia 9 de fevereiro, e após a discussão pública dos diplomas discutidos inicialmente a 15 de fevereiro”. A OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico), com base na avaliação ao Ensino Superior e à produção científica portuguesa, havia proposto – entre outras medidas – esta alteração.
A Lei de Graus e Diplomas aprovada esta quinta-feira, já havia sido apresentada a 16 de fevereiro, pelo ministro do Ensino Superior, Manuel Heitor, após o Conselho de Ministros, tendo estado em discussão pública até agora.
Os doutoramentos atribuídos pelos politécnicos dependerão, refere o texto da iniciativa legislativa, se as instituições tiverem unidades de investigação científica “com nota mínima de Muito Bom”. “Fazer depender a acreditação de ciclos de estudos conducentes ao grau de doutor da avaliação institucional” da unidade de investigação e “não do subsistema em que a instituição se integra”.

Publicado em: “Jornal de Notícias”

“Fazer aqui doutoramentos vai dar grande notoriedade à região”

Nesta segunda parte da entrevista, o presidente cessante do Instituto Politécnico de Bragança explica os projetos que vão surgir e que podem contribuir para, finalmente, desencravar a região. Assim ela queira…
Mensageiro de Bragança: Conferir doutoramentos era algo ansiado há muito. De que forma é que isso pode mudar o panorama na região?
Sobrinho Teixeira: A questão dos doutoramentos era muito solicitada há muito tempo. Era uma das razões por que o IPB queria ter o estatuto universitário, pois tínhamos uma capacidade instalada de realizar esse grau e depois acabava por não ser possível outorgá-lo. A questão dos doutoramentos tem uma grande importância porque é sabida a capacidade de internacionalização do IPB. A capacidade que temos de entrar em redes de conhecimento e de aqui gerar projetos de investigação com relevo não será tão conhecida. A internacionalização do IPB vai muito para além da questão de trazer alunos. O IPB foi a instituição portuguesa que participou em maior número de projetos transfronteiriços. Portanto, quando vamos estabelecer contactos com instituições congéneres e mostramos o que é a realidade do IPB, nomeadamente todos os rankings que já são recorrentes. Desde há quatro anos têm sido vários rankings a irem todos no mesmo sentido. As instituições ficam com uma visão sobre a capacidade do IPB e uma perceção de que o IPB é um bom parceiro para estabelecer contactos e projetos conjuntos muito grande. Quando nos perguntam porque não damos doutoramentos, percebem que gaguejamos quando temos de responder. “Se são tão bons, porque não podem dar?”, perguntam as pessoas.
MB.: Portanto, abre um novo campo de recrutamento?
ST.: Abre um novo campo de recrutamento de alunos e de estabelecimento de contactos
institucionais e de participação do IPB em redes internacionais e projetos, que trazem conhecimento para a região. A nível regional, este foi um dos argumentos mais fortes que, ao longo deste tempo, fazíamos valer. Vamos ser realistas. As principais missões do IPB são duas. A primeira é ministrar um ensino de qualidade. A segunda é induzir o desenvolvimento regional. Isso faz-se, sobretudo, com fatores estratégicos, boas redes viárias, novas centralidades que se geram. Um dos fatores mais importantes é haver conhecimento que possa ser adicionado a essa região. O IPB tem aqui essa grande missão, de induzir o desenvolvimento regional, sobretudo para que possa ser atrativo. Para isso, temos de trabalhar em diversas frentes, também nos graus e nas tipologias que ministramos. Espero que os politécnicos tenham a inteligência de continuar a valorizar os cursos profissionais. Acho que é uma tipologia de uma importância muito grande, para dar resposta a áreas da economia que necessitam dessa tipologia de quadros.
Em termos de qualificação, Portugal está com 36 por cento de população jovem com qualificação superior. Temos a meta de chegar a 2020 com 40 por cento. Estamos no bom caminho e próximos de conseguir essa meta. O nosso ministro, Manuel Heitor, já definiu que o nosso objetivo é, em 2030, termos 50 por cento. Teremos de ter capacidade de recrutamento e de induzir jovens para a qualificação. Fiz parte da comissão nomeada pelo ministro para estudar o acesso em Portugal. Algumas das nossas propostas foram um pouco polémicas e, portanto, não avançaram desde logo, porque o próprio ministro disse que era preciso haver algum consenso. A verdade é que a OCDE veio corroborar exatamente o que disse a comissão. Ou seja, cerca de 85 por cento dos jovens que acabam a formação nos campos científico-humanísticos, prosseguem estudos para o ensino superior. Os alunos que vêm do profissional, no secundário, representam já quase 40 por cento. Mas, desses, apenas 12 por cento estão a prosseguir para o ensino superior. Portanto, há uma quantidade muto grande de jovens que não estão a ser aproveitados nem a prosseguir estudos. Por maior esforço que façamos, não vamos aumentar muito mais no campo científico-humanístico. Onde é possível haver esse reforço é no profissional. Crescermos em termos de diplomados é importante por duas coisas. Desde logo, para a sociedade. Uma pessoa que está qualificada vai conseguir ter maior eficácia no seu posto de trabalho e, mais tarde ou mais cedo, vai conseguir auferir um melhor salário. Estamos ainda com uma visão conservadora de que um licenciado, só porque é licenciado, tem de ter um vencimento muito maior do que aquele que não é, mesmo que não tenha adquirido competências ou não faça muito mais coisas do que o outro. Isso tem de ser desmistificado. As pessoas não são licenciadas para terem um canudo mas para terem competências e fazerem coisas no seu local de trabalho. Ou seja, não acredito que uma mesma pessoa, estando qualificada, não faça mais e melhores coisas do que não estando. Se a pessoa se qualificar, consegue ter maior eficácia e, como dá mais retorno a quem a emprega, consegue ter um salário melhor. Ao fim e ao cabo, o Estado e nós todos vamos poder cobrar mais impostos a essa pessoa. Com o mesmo número de pessoas a terem um salário maior, o nosso país vai ter um retorno muito maior. Quando estamos a investir na qualificação estamos a investir no nosso futuro porque aquela pessoa vai conseguir fazer mais coisas. Por outro lado, hoje, uma das questões mais importantes é termos acesso e sermos motivados a qualificar-nos. O que se nota é que os alunos do profissional não estão tão motivados para prosseguir os estudos. São miúdos sobre os quais temos obrigação de exercer um trabalho mais efetivo. Muitos deles vêm de agregados familiares com menor capacidade de resposta social. Os pais não valorizam a qualificação e, como tal, não motivam os seus filhos. Essa é uma das maiores condições de desigualdade hoje em dia. Hoje, uma das maiores obrigações de um Estado não é só dar acesso, é motivar e promover a qualificação genérica da sua população. Com a perspetiva de que demora menos tempo, há muitos jovens que seguem esta via, dos antigos CETs que agora são CETESPs. Mas este tipo de estudos têm uma dupla missão. Por um lado, qualificar a pessoa para o mercado de trabalho e, por outro, motivar a pessoa a prosseguir estudos. Quando o IPB está a fazer todo este trabalho, quer a nível regional quer fora da região, é importante trabalhar em zonas de maior densidade populacional. Estamos também para ajudar a qualificar os jovens. E acho que os politécnicos têm a obrigação de fazer esse trabalho. Aliás, deveria haver uma maior ligação entre o ensino politécnico e o ensino profissional ministrado no secundário. Maior ligação com os alunos e maior ligação com o corpo docente dessa área. Ou seja, os politécnicos deveriam ter como missão também trabalhar com os professores dos cursos profissionais exatamente para gerar um ambiente que seja mais motivador, um ecossistema convidativo para a qualificação. E já se percebeu que isso seria importante para chegar aos 50 por cento de jovens qualificados. E isso é importante para gerar mais igualdade entre os portugueses. Voltando aos doutoramentos, espero que esta perspetiva não nos leve a ter menor atenção para com esta missão dos próprios politécnicos. Agora que já ganhámos essa batalha, poderemos fazer esse trabalho sem complexos. Penso que será uma das orientações que os politécnicos devem ter nos próximos anos, mas teria de haver um trabalho articulado entre o nosso ministério e o da educação, exatamente para arranjar formas de valorizar o ensino profissional e o corpo docente. Relativamente aos doutoramentos, a par de ministrar um ensino de qualidade, a missão do IPB deve ser a ligação à região. E só se consegue desenvolver uma região gerando conhecimento. Várias vezes argumentava a favor disso. Agora que a região me diz que precisa de mais investigação com a necessidade de gerar conhecimento, eu tinha de dizer que não podíamos fazer porque somos politécnicos. Acho que ninguém com bom senso entende uma coisa destas. Se a
nossa principal missão é induzir o desenvolvimento de uma região, tenho de dar resposta, ainda por cima se tenho capa cidade integrada, desde o ensino profissional aos doutoramentos. Ao longo do tempo procurámos contornar o problema. Temos mais de 70 pessoas aqui a fazer o doutoramento. Ou seja, já que havia esse impedimento legal, criámos mecanismos para o ultrapassar, algumas vezes com uma perda para o país.
MB.: Porquê?
ST.: Porque temos aqui mais de 70 pessoas a fazer a investigação mas que depois tinham de ir fazer a arguição da tese noutra instituição, que servia como barriga de alugar. A maioria em universidades que não são portuguesas, porque é mais fácil. Por exemplo, já tínhamos ligações com instituições universitárias em Espanha, que permitem que os nossos docentes possam ser os orientadores, possam estar em júris de doutoramento, que a tese possa ser defendida em Bragança e escrita em português. Só precisa de ter 18 páginas em castelhano. E que possa, também, ser discutida em português. Esta atitude protecionista das universidades acabou, também, ela própria por gerar a outorga do grau aos próprios politécnicos. Havia situações em que as universidades não aceitavam que os nossos docentes pudessem ser orientadores. Quando assim é, o nosso sentido prático levou-nos a procurar diferentes alternativas. Esta questão vai ter importância em duas situações. Por um lado, questões que a região coloca e têm de ser respondidas com um grau de conhecimento muito maior. Quando falamos, por exemplo, da cura do cancro do castanheiro ou projetos ligados à sanidade da oliveira. São projetos que exigem três anos de investigação e uma grande qualificação de quem os está a fazer. Seria normal que o IPB dissesse que não ia dar resposta a estas questões colocadas pela região porque não podia atribuir o grau? Acho que isso não é entendível. O que fizemos foi contornar um artificialismo que havia na parte legal e temos aqui, neste momento, 70 pessoas a fazer o doutoramento. A partir de agora já se vai poder realizar aqui os doutoramentos. Isso gera uma capacidade de atração de investigadores de outras partes do mundo muito grande. Agora já não será para ter uma resposta para a região mas para gerar conhecimento que tem uma importância muito para lá do fator regional. A notoriedade que há de vir para o IPB vai ser também importante para a captação de tecido empresarial. Todos concordamos que, hoje, um dos maiores fatores de que falamos é haver essa capacidade alicerçada numa região e ter instituições capazes de o fazer. A imagem que vai haver, nos doutoramentos que aqui consigamos criar, de resposta ao mais alto nível a estes problemas e as parcerias internacionais que nos vão permitir, vão trazer uma perspetiva de conhecimento e inovação muito forte dentro da região, aliada à visão que vamos ter de ter que já não existem fronteiras e que Bragança não está no interior de Portugal as no centro da Península Ibérica. Isto é uma das mudanças das nossas mentalidades.
Com esta perspetiva que existe da autoestrada até Zamora, de estarmos a poucos minutos do TGV, que o IC5 seja fechado com a ligação a Espanha, que é muito importante para a região (com extensão a Bragança), podemos mostrar aos empresários as vantagens de estar em Bragança. A região ficará numa posição estratégica muito forte e, depois, tem por trás, uma das instituições mais reconhecidas do país, que dá resposta a questões relacionadas com o conhecimento. Penso que, se formos capazes, proativos e exigentes, poderemos ter, nos próximos anos, uma perspetiva de indução da economia na nossa região com alguma expressão. Existem problemas, respostas que têm de ser dadas, mas isso irá haver. E esta questão dos doutoramentos é algo que terá uma notoriedade muito grande. E, para isso, a instituição terá de ter centros de investigação próprios.
“IPB será pioneiro nas metodologias de ensino”
MB.: Qual lhe parece que será o caminho para o futuro?
ST.: O IPB teve três grandes focos no seu desenvolvimento. O primeiro foi a qualificação do seu corpo docente, uma aposta do professor Dionísio Gonçalves. Se hoje temos a instituição que temos, com quase 80 por cento do corpo docente doutorado, com uma grande resposta da investigação foi porque qualificámos pessoas. Foi aí que começou a grande diferença do IPB. A segunda foi ver, naquilo que era uma dificuldade pela localização da região, ver uma oportunidade. Foi a capacidade de internacionalização do IPB. Este ano crescemos em número de alunos internacionais mas já no ano passado fomos o distrito que mais alunos conseguiu captar ao nível das licenciaturas e dos mestrados integrados. O IPB meteu mais gente que as instituições de Lisboa todas juntas, universidades e politécnicos. Isso hoje cria uma imagem de marca e uma notoriedade a nível nacional e internacional muito grande. Hoje todos se sentem muito satisfeitos por termos cá quase 2000 alunos de 69 países. Isso é um orgulho da região.
Tudo o que se conseguiu não é para abandonar. Na questão da internacionalização, também. Todos os anos esgotamos as cerca de 400 vagas para estudantes internacionais. Agora é fácil captar alunos? O difícil
foi passar de 20 para 70. Continuando a alimentar esta perspetiva, penso que, agora, o grande desafio vai ser a ligação cada vez maior do IPB às instituições da região. Esse será o foco e é para esse foco que o IPB tem de se orientar e que eu gostava, também, que as empresas se orientassem. Todo o trabalho que estamos agora a realizar procura ser nessa direção. O laboratório colaborativo que vai gerar 4,5 milhões de euros nos próximos cinco anos vai ser precisamente isso. Conseguimos ganhar um projeto mobilizador na área alimentar, liderado por uma empresa de Mirandela. É um projeto que vai procurar o quê? Neste momento temos uma série de patentes que são propriedade do IPB e que achamos que são industrializáveis, que é possível passar da fase do laboratório para a fase de venda do produto. E não é vocação do IPB andar a vender produto mas continuar a descobrir coisas. Este projeto são quatro milhões de euros, para além dos 4,5 milhões de que falámos anteriormente, muito importantes para a região, para podermos passar da fase de investigação para a fase de venda de produto. Depois, fizemos este projeto, o Demola,
que vai ser implementado a nível nacional. O IPB vai ajudar outros politécnicos a implementar esta ideia de por os alunos e as empresas a fazerem inovação. A primeira fase terminou em fevereiro. Num dos projetos, a ideia que os alunos criaram foi tão interessante que a empresa quer fazer uma nova empresa em que os alunos serão sócios. Se
replicar isto 50 vezes, teria um impacto imenso. Para além disso, onde o IPB quer ser conhecido e pioneiro é nas novas metodologias de ensino, onde se aprende em contexto real de trabalho e fazendo coisas. Fizemos esses projetos com os politécnicos europeus e estamos, com toda a humildade, a treinarmo-nos para trabalharmos dessa maneira.
Os alunos vão aprendendo não pela matéria que o professor lhes transmite mas resolvendo um problema real colocado por uma empresa. O professor vai dando a matéria à medida que os alunos necessitam dela para resolver o problema. Hoje, o
que se aprende, a não ser nas áreas básicas, está desatualizado. Portanto, mais do que os alunos ouvirem o professor dizer uma data de coisas que daqui a dez anos já estão desatualizadas, não tem importância. O que se pensa é levar os alunos a ter capacidade de aprender e, numa nova situação, eles próprios conseguirem adquirir conhecimento e
competências para eles próprios. Temos de por os alunos a trabalhar diretamente com as empresas. Portanto, esta questão de sermos inovadores nas metodologias de ensino vai ser importante para o IPB e a sua região. E é importante, também, para a imagem do IPB. Não foi por acaso que o Ministro do Ensino Superior disse aqui que espera que o IPB seja, no futuro, reconhecido como uma das instituições, a nível europeu, mais dinâmicas e inovadoras nas metodologias de ensino e aprendizagem. Para terminar, pode pensar-se que, pelo facto de estarmos numa região com menos densidade económica, isto representa algum handicap para esta perspetiva de evolução. Mas acho que é mais uma oportunidade
para o próprio instituto. Instituições que têm esta perspetiva em zonas de grande densidade económica, vamos encontrar várias na Europa. Mas ter uma que acredita nisto e que vai ser capaz de o fazer numa zona de baixa densidade económica, será, talvez, a única. É a mesma coisa – até para ligar à questão da evolução futura do IPB –
com a criação dos centros de investigação que aqui fizemos. Candidatámos quatro centros de um modo próprio do IPB.
MB.: Quais são?
ST.: Um deles foi na área do Ensino Básico, que é uma área determinante. Sempre foi uma área muito própria do ensino politécnico. Para mim, o professor mais importante do sistema de ensino é o professor do ensino básico. É o que marca uma criança para o futuro. Um mau professor vai marcar muitas crianças para o futuro. Logo, todo o conhecimento que se possa gerar sobre esse aspeto tem uma importância muito grande para o desenvolvimento da
juventude. Outro centro foi na área da gestão turística. Outra das candidaturas é com um centro de inovação industrial e automação. Conseguimos centrar todos os professores que estavam dispersos por outros centros de investigação. Tivemos uma grande ajuda do INESC TEC. A perspetiva deste centro é ver como é possível para criar conhecimento, criar indústria, em áreas de baixa densidade. Acho que, se se afirmar, vai ser uma das grandes bandeiras do instituto e da região, com grande relevo a nível mundial. O outro é o centro de investigação
de montanha, que alicerça tudo o que é esta realidade e todos os projetos que ganhámos. É já reconhecido a nível mundial.
MB.: Ainda há espaço para a captação de mais alunos estrangeiros? Serão, no futuro, o grosso dos alunos do IPB?
ST.: A percentagem dos alunos estrangeiros vai crescer mesmo que não façamos mais nada. Este ano
estamos nos 400, no ano passado 350. Tivemos um crescimento de cerca de 15 por cento. A grande limitação que temos é a do número de vagas. Mesmo que não façamos mais nada, a grande entrada está a acontecer agora. Dado o tempo de permanência na região, haverá um aumento mesmo que não aumentem as vagas. Penso que esse número nunca deve chegar a metade. Seria uma instituição que não está a cumprir a sua missão nem tem sustentabilidade no futuro. Temos crescido
no número de alunos estrangeiros mas sem diminuir o número de alunos nacionais. Essa é que tem de ser a perspetiva.
Nunca o presidente do IPB de certeza que fará a asneira de tirar um aluno nacional para colocar um aluno estrangeiro. Temos de os ver como uma adição. Se não, depois, a instituição não tem sustentabilidade.
MB.: Este é um fenómeno consolidado?
ST.: Isto pode perder-se. Um aluno estrangeiro, sobretudo que não seja da lusofonia, vem para Bragança, em primeiro lugar, porque Portugal é um país da Europa. Ter um diploma válido na União Europeia tem um valor muito grande, mesmo que não seja às vezes para trabalhar diretamente cá. Por outro lado, dentro da Europa
haverá sempre países mais competitivos como a Alemanha ou Reino Unido. Mas porque vêm para cá ou não vão para Áustria, Eslovénia, República Checa? Porque aqui se fala uma língua falada por 270 milhões de pessoas. O mundo lusófono tem um grande valor. Vêm aprender a quinta língua mais falada no mundo e a mais falada no hemisfério sul.
MB.: Mas, porque é que dentro de Portugal, esses alunos vêm para Bragança? Porque é que Bragança meteu mais alunos internacionais do que o distrito de Lisboa?
ST.: Para eles, a distância face a Lisboa, é irrelevante. Fica perto do mar, perto de Madrid, de Salamanca. O que procuram? Qualidade da instituição e segurança e qualidade de vida do local para onde se candidatam.
Daí a importância dos rankings. Quem vem de fora, dá uma noção de grande qualidade da instituição. E, depois, começam a ver que o custo de vida é baixo, a qualidade de vida é boa e a insegurança é baixa. A questão da qualidade da instituição está assegurada, pois não vamos baixar nos rankings de um momento para o outro. Portanto, temos de continuar a assegurar qualidade de vida e segurança, sobretudo nas cidades de Bragança e Mirandela.
MB.: Acha que estas cidades não estavam preparadas para este crescimento?
ST.: Acho que estão a dar uma resposta. Aquilo que é a diversidade cultural e a quantidade de pessoas que são diferentes deve transformar-se num orgulho destas cidades de dar uma demonstração de civilidade ao país e ao mundo. Poderá haver sempre fenómenos, com impacto limitado, que pode brincar um pouco com essa realidade. O
meu apelo é que as pessoas de Bragança e Mirandela não deixem isso acontecer.
MB.: Está a falar de racismo ou de aproveitamento económico?
ST.: De tudo. São casos sem importância, neste momento. Mas, com o aumento do número, tenho receio
que venham a ter. Estou a ter uma atitude preventiva. Não pode ser só o IPB, a Câmara e as forças de segurança. Têm de ser também as pessoas. Só se evita isso se acharmos que é um problema de todos. É muito fácil destruir. Basta acontecerem dois ou três problemas, espalham-se pelas redes sociais e as pessoas deixam de vir. Tem de ser um
trabalho conjunto de todos. Por outro lado, tem de continuar a haver esta relação de qualidade e custo de vida. É preciso ter a clarividência de que temos de continuar a oferecer este binómio. Ter alojamento, ter diversão noturna, a preços competitivos. Não escondo que um dos receios que tenho é que, devido ao aumento que estamos a ter no número de alunos, se as pessoas começam a pensar que podem aumentar preços, daqui a três ou quatro anos esses apartamentos ficam vazios. Há, também, aqui um apelo de uma consciência coletiva. Temos de aumentar a oferta de alojamento. O problema não se resolve aumentando o custo desse alojamento. Vamos fazer com que se perca e daqui a uns anos entrarmos em retrocesso.

Publicado por: “Mensageiro de Bragança”