Recursos hídricos e geológicos são um potencial de riqueza à espera de investimento

Trás-os-Montes é uma região rica em recursos geológicos, com jazidas de minerais importantes no contexto nacional, sobretudo de ferro e lítio, porém falta dar um passo definitivo para a sua exploração. “Não depende só dos agentes locais mas de uma estratégia nacional e europeia”, explicou Carlos Balsa, engenheiro de Minas e docente do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), à margem da primeira edição das Jornadas “Recursos Hídricos e Geológicos de Trás-os-Montes”, que tiveram lugar na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, na passada quinta-feira. Este investigador considera “que não tem sido prioritária” a exploração daqueles recursos desde a integração de
Portugal na Comunidade Europeia. “Não basta ter potencialidades, é preciso uma estratégica económica”, sublinhou. Também Machado Leite, membro do Conselho Diretivo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, defende que a exploração dos recursos tem que ser económica,
ou seja sustentável. “ No passado eram sustentáveis as de pequena dimensão, para mercados mais próximos. A viabilidade
conseguia-se de uma forma mais fácil. Hoje a exploração dos recursos naturais é desenvolvida no âmbito generalizado e globalizado, as condições que levam à viabilidade económica são mais complicadas, porque necessitam de dimensão, tecnologias novas, com custos novos no contexto da Europa e no contexto ambiental. Se a viabilidade económica não for conseguida
os recursos não podem ser valorizados”, esclareceu Machado Leite.

Lítio e Ferro são dos maiores potenciais

Vivemos na região do país com mais recursos de lítio, principalmente em Montalegre, cujo interesse tem aumentado nos últimos anos. Para já está tudo num impasse.
“Este mineral é muito importante devido à mobilidade eléctrica dos carros. Estamos numa fase de mudança do tipo de locomoção baseada em derivados de petróleo, para a derivada a eletricidade
com recurso a baterias de iões de lítio”, observou Carlos Balsa.
O lítio já foi prospetado e foram identificadas “grandes ocorrências” em Trás-os-Montes, em Montalegre, Alijó e Barca D’Alva, mas continua “em vias” de ser explorado. A importância das jazidas de ferro de Torre de Moncorvo é mais do que conhecida. “Teve uma grande procura por parte da China na década passada, em termos de aço, o que fez subir o preço do ferro e em consequência as reservas de Trás-os-Montes foram de novo procuradas, pesquisadas e prospectadas”, acrescentou o docente do IPB. Já Machado Leite defendeu que esta reserva de ferro “foi escassamente explorada”, sublinhando que na sua opinião “só o foi em domínios experimentais, pois nunca entrou em produção efetiva”. Para retomar a exploração tem que ser uma extração competitiva numa escala mundial ou pelo menos europeia na chamada siderurgia, pois aquele minério de ferro destina-se à produção de aço. Deteta ainda outro problema, relacionado com a localização das jazidas, devido à dificuldade de transporte do minério. “Para valorizar mais o ferro em termos de outros produtos seria necessário trazer outras matérias primas para Moncorvo, para fazer a transformação.
Se dali saísse um produto siderúrgico desenvolvido, mais sofisticado, obrigava ao uso de outras matérias-primas vindas de fora. Um dos problemas tem a ver com a logística. É um processo de grande dimensão, não se pode fazer uma pequena
mina. Tinha de ser de dimensão considerável”, sustentou Machado Leite.
Livro sintetiza a riqueza da região
Durante as Jornadas “Recursos Hídricos e Geológicos de Trás-os-Montes” foi apresentado o livro “Recursos geológicos de Trás-os-Montes- Passado, presente e perspetivas futuras”, que recolhe depoimentos de profissionais e investigadores, nomeadamente do anterior presidente do IPB, João Sobrinho Teixeira, atualmente Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia
e Ensino Superior. “Fazia falta um documento que fizesse a divulgação de uma forma acessível dos principais recursos geológicos da nossa região. Com este livro tentamos colmatar, um pouco, essa carência. Juntamos a informação dispersa num só documento de forma a promover os principais recursos da região”, explicou Carlos Balsa.
A publicação destaca também aos recursos hidrominerais, que são as águas termais, “que correm com bastante abundância”
devido às duas falhas geológicas, como a da Vilariça e de Vila Real-Verin-Régua. “Estes debates são importantes para divulgar e para sensibilizar os empresários para as potencialidades. Este livro sensibiliza as pessoas para as potencialidades dos recursos e para a importância económica que poderão vir a ter, porque já tiveram no passado, pois alguns vêm sendo explorados desde a época romana”, afirmou o investigador.
A exploração das termas está a ressurgir e muitas têm sido valorizadas, em vários casos por iniciativa dos municípios. O docente considera que a região tem muito potencial ao nível das águas termais e minerais, já comprovado com os exemplos da
Câmara de Vimioso que explora termas da Terrenha, e os do Grupo Super Bock que está com as termas das Pedras Salgadas.
A exploração mineira marcou a região e muitos concelhos, não só em termos económicos mas, sobretudo, demográficos.
“Houve populações que triplicaram nessa época. Houve um certo desafogo financeiro que é muito importante. Os mais velhos não têm uma opinião negativa das minas, essa negatividade tem origem em alguns problemas ambientais decorrentes, mas nessa altura as leis não eram tão exigentes como são hoje, em que uma exploração tem que respeitar as diretivas ambientais”, acrescentou Carlos Balsa.
O livro agora editado nasceu no âmbito dos Laboratórios de Participação Pública, que deram ainda origem “à Escola de Negócios de Macedo de Cavaleiros, a um TeSP (Curso Técnico Superior Especializado) na área da Música, em Mirandela; ao Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação, em Bragança, a um TeSP sobre Minas em Moncorvo”, enumerou o
Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

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Falta de nevões em Montesinho mostra flutuações cíclicas do clima

Os últimos grandes nevões em Bragança e em Montesinho ocorreram na década de 1990

A falta de nevões em Montesinho é uma evidência das flutuações cíclicas do clima entre o arrefecimento e o aquecimento, defende o meteorologista Dionísio Gonçalves, que rejeita que exista alguma tendência em torno das alterações.
Depois de um fim de semana de temperaturas acima dos 20 graus, Bragança está hoje incluída nos avisos de neve e, em situações semelhantes, a primeira pergunta que surge é se “já neva em Montesinho”.
Com ou sem previsões oficiais, a realidade é que “já não neva como antigamente, nem em Montesinho, nem na cidade” de Bragança e a falta de nevões é “uma das únicas evidências no clima regional” das alterações climáticas que, para o meteorologista Dionísio Gonçalves, “são questões cíclicas”.
Os últimos grandes nevões consecutivos de que há registo em Montesinho ocorreram nos anos “excecionais” da viragem da década de 1960 para 1970, numa época em não se falava do aquecimento global (‘Global Warming’), mas do arrefecimento (‘Global Cooling).
“A temperatura nas décadas de 1960 e 1970 desceu significativamente e, o que se falava nos meios científicos, era do ‘Global Cooling’ porque a temperatura estava a arrefecer, embora houvesse uma poluição desmesurada”, contou à Lusa.
Depois dos anos 80, a temperatura “recuperou e teria atingido os máximos antes de chegar ao final do século”.
Agora está, continuou, “para cima e para baixo, com grandes oscilações, e não se pode dizer que haja uma tendência nítida de progressão”.
Dionísio Gonçalves é professor catedrático jubilado de Bragança e foi sempre um curioso do clima, o que o levou a fazer um doutoramento em meteorologia e a estudar o clima da região ao longo da sua carreira.
Em entrevista à Lusa, lembrou que “só a partir do final da década de 80 é que se começou a falar do Aquecimento Global de uma forma muito alarmista, dizendo que se chegava ao fim do século XX com quatro a cinco graus acima da média”.
“Alias, dizia-se mesmo que o Ártico estaria livre de gelo em 2013. Foi precisamente no ano de 2012 para 2013 que o gelo aumentou dois mil quilómetros”, apontou.
Isto acontece, na opinião deste estudioso, “porque há flutuações” e Dionísio Gonçalves acredita que a comunidade científica começou a aperceber-se de que “não se pode simular o clima futuro, basear os modelos, apenas nos gases de efeito de estufa, porque há outros componentes”.
E há também “as questões políticas”, enfatizou.
“O clima sempre esteve em alteração permanente. Agora, sob o ponto de vista político e mundial, quer-se vincular de uma forma, talvez exagerada, que é o Homem que está a forçar o clima para além daquilo que seria normal”, considerou.
A ideia parece-lhe “sem pés nem cabeça” e defende: “não tem muito cabimento chamarmos a nós essa capacidade de fazer aquecer e arrefecer o globo”.
Dionísio Gonçalves lembra que estas situações climáticas já aconteciam antes, “mas politicamente e economicamente o mundo tinha outras preocupações, como aquando do grande ‘boom’ depois da guerra”.
Os últimos grandes nevões em Bragança e em Montesinho ocorreram na década de 1990. A cidade entrou no ano de 1997 com vários dias sucessivos de neve e gelo que provocaram constrangimentos e a queda de estruturas na zona industrial.

Publicado em: “Diário de Notícias”