REPORTAGEM: O programa que com a Ciência “Integra” estudantes dos PALOP em Bragança

Os angolanos Laurindo e Aldaire estão a estudar no Politécnico de Bragança e já tem planos de negócios para quando regressarem ao país de origem graças à experiência de um programa destinado a integrar os alunos dos PALOP.
Ambos participaram nos últimos meses nas atividades do “Integra”, um programa do Centro de Ciência Viva de Bragança, em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança (IPB) que lhes permitiu “aprender uma série de coisas que só pela escola” não seria possível, como disseram à agência Lusa.
A iniciativa é de âmbito nacional com o propósito de ajudar a integrar, através da Ciência, quem chega de fora nas comunidades locais. Em Bragança, o Centro de Ciência Viva decidiu destiná-lo aos 417 estudantes do IPB oriundos dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) com o projeto, de duração de dois anos, “Rotas Científicas para uma Integração Intercultural”, explicou à Lusa a responsável, Ivone Fachada.
Desde novembro, um grupo de 25 jovens estudantes tem marcado presença assídua nas diferentes ações que se dividem por três diferentes “ilhas” de conhecimento: empreendedorismo, ciência e tecnologia e multiculturalidade.
No empreendedorismo, como indicou Ivone Fachada, os jovens aprenderam a criar um micro negócio e experimentaram o contacto com o público comprador na iniciativa municipal “Banca na Praça”, em que venderam produtos alimentares.
Na vertente da ciência e tecnologia fizeram passeios de geologia urbana, ‘workshops’ de fotografia, de fitofarmacologia com algumas plantas podem utilizar nos seus países para desenvolver produtos medicinais.
A vertente da multiculturalidade permitiu aos jovens partilharem no edifício sede do Centro de Ciência Viva “pequenos laivos da sua cultura, desde a música à gastronomia”.
Laurindo Ladeira tem 25 anos e chegou a Bragança, vindo de Angola há mais de dois anos para estudar no IPB.
Soube do programa “Integra” a partir da Associação de Estudantes Africanos, de que foi vice-presidente.
“Entrei aqui não sabendo muito coisa e saio daqui sabendo muito mais por causa da variedade de assuntos que foram cá tratados”, resumiu à Lusa esta experiência com a Ciência.
Laurindo destaca a vertente do empreendedorismo convicto de que depois do que aprendeu já se pode “aventurar a ganhar dinheiro, fazer novos negócios”.
“Antes de vir para Bragança já tinha começado a produzir sabão caseiro, em Angola, e penso que, com a formação que recebi, vai dar para criar mais alguma coisa, ou seja ir mais a fundo nisso”, concretizou.
Tanto na instituição de ensino superior que frequenta como nas ações do programa “Integra”, o jovem afirma ter-se sentido “em casa”.
“Tenho dito que, desde que cheguei cá a Bragança, tenho-me sentido em casa e este projeto, para mim, serviu exatamente para isso: senti-me a fazer coisas como se estivesse na minha casa. Em momento algum senti que estivesse fora de Angola”, garantiu.
Aldaire de Almeida, de 23 anos, fez o mesmo percurso de Angola para Bragança, onde está também há mais de dois anos, e nos últimos meses participou em “90%” das atividades do “Integra”.
“Foi uma experiencia maravilhosa interagir com os colegas e com os formadores, com conceitos técnicos que levo e que desconhecia”, partilhou com a Lusa, realçando “a experiência prática de formular um negócio”.
Aldaire acredita que vai ser “muito útil” porque tem “ideias de negócio e há muita coisa” que aprendeu que “valerá muito no futuro”.
“É essencial esta atenção das entidades pelo facto de que permite aos estudantes “aconchegar” mais aos hábitos, à Cultura de Bragança, e aprender uma série de coisas que só pela escola não poderíamos aprender”, enfatizou.
Também para os professores do politécnico de Bragança este projeto é uma aprendizagem e oportunidade de aproximação aos jovens estudantes, como disse à Lusa o docente Vitor Gonçalves.
“Estes alunos focam-se em comunidades muito específicas e nem sempre é fácil entrar nos grupos deles e isto é uma forma de eles entrarem no nosso grupo, de se integrarem na comunidade”, considerou.

Publicado em: “Diário de Notícias”

Projeto de integração dos estudantes vindos dos PALOP é desenvolvido em Bragança

O “integra” visa incluir pela ciência, tecnologia e cultura. O projecto está dividido em três grandes áreas a multiculturalidade, ciência/tecnologia e o empreendedorismo, organizadas pelo Instituto Politécnico de Bragança e pelo centro de ciência viva.
O objectivo é, segundo Ivone Fachada, a directora do centro de ciência viva, que “as actividades facilitem, pela via da educação científica inclusiva, o desenvolvimento independente destes cidadãos, ao nível académico, social, pessoal e emocional.”
No fim-de-semana, um workshop de fotografia, foi o desafio proposto aos participantes. O centro de ciência viva, convidou o fotógrafo Pedro Rego, para orientar o workshop com uma sessão dividida em duas partes: uma teórica e uma prática.
São cerca de 20 os participantes que fazem questão de participar em todas as actividades, de áreas diversas do ensino, como a biologia ou o empreendedorismo. Desta vez, os estudantes aderiram novamente em força à iniciativa que consideram ser uma mais-valia para os seus currículos.
Laurindo Ladeira achou o projecto interessante, o estudante refere que viu as ideias propostas e achou “que seria adequado para alguns dos objectivos que tinha cá em Bragança”, cidade onde vive há 2 anos.
Pedro Rego, o formador convidado para o workshop de fotografia, considera que é cada vez mais importante a aposta na fotografia que cada vez mais se nota principalmente nas novas gerações.
O fotógrafo vê estes workshops como uma “mais-valia para que os alunos sejam capacitados não só na vertente científica, como também na divulgação dos seus projectos que eles possam estar a pensar implementar nos seus locais, nomeadamente a divulgação da fauna e da flora.” Pedro Rego considera que a fotografia é uma arte que interessa a cada vez mais pessoas e que “neste momento as pessoas procuram cada vez mais ter técnicas para tirar boas fotografias, pois a fotografia hoje em dia é um vínculo fundamental no mundo.”
O projecto é financiado em 85 por cento por fundos comunitários e durante dois anos vão ser realizadas sessões que visam a integração de pessoas desfavorecidas, estudantes oriundos de outros países, desempregados, idosos, etc. O público-alvo do centro de ciência viva de Bragança são sempre os estudantes dos PALOP, mas outras pessoas podem também participar nas sessões que vão decorrer até ao final de 2018.

Publicado por: “Rádio Brigantia”

IPB reforça cooperação com os PALOP na área das Ciências Agrárias

A Escola Superior Agrária de Bragança (ESAB) recebeu a reunião anual da Associação de Ensino Superior em Ciências Agrárias dos Países de Língua Portuguesa (ASSESCA- PLP), que teve lugar na passada segunda-feira, onde mais uma vez ficou implícita a vontade de aumentar a cooperação entre as instituições portuguesas e as dos restantes países da lusofonia.
Há vários projetos em curso, como a mobilidade dos alunos, dupla titulação de cursos, bem como a ministração de licenciaturas e mestrados nos PALOP. “Há um objetivo comum, o de fortalecer e fomentar a área agrária nos países da lusofonia e da CPLP, porque representa uma reserva estratégica para os países e para a eliminação e erradicação da pobreza e da fome”, explicou Sobrinho Teixeira, presidente do IPB.
Está ainda a ser perspectivada uma ligação estreita dentro da CPLP para aumentar a produção alimentar. “Pode ser feito através da extensão da área agrícola de acordo com a realidade de cada país e o aumento da qualificação de pessoas e técnicos para que eles possam induzir o desenvolvimento da atividade agrícola dessa região”, adiantou o responsável. Já estão agendadas ações de formação cá e lá.

Agrária tem 850 alunos 
O IPB mantém estreitas relações com institutos politécnicos de São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola e Timor Leste, para onde deslocam docentes. “Esta reunião tem como objetivos juntar todos os intervenientes, bem como reitores e presidentes das instituições, no sentido de podermos encontrar novas formas de aprofundamento”, acrescentou Sobrinho Teixeira. As técnicas de combate a algumas pragas, como a mosca da azeitona, podem ser estendidas a produções tropicais.
O presidente da ASSESCA-PLP, Hortênsio Comissal, que presidiu à reunião em Bragança, referiu que a agricultura é um sector fundamental, mas em alguns dos países dos PALOP “a investigação ainda não está muito desenvolvida, daí que seja fundamental esta troca de experiências para alavancar os países do terceiro mundo”.
A análise de programas de financiamento para programas de investigação e desenvolvimento foi outro tema em destaque. O presidente da Escola Agrária, Albino Bento, deu conta que são muito procurados por alunos estrangeiros, mas não só dos PALOP. “A Agrária tem este ano 850 alunos. Nos últimos dois anos a procura tem aumentado”, notou. Os mestrados desta escola são mais frequentados por alunos estrangeiros do que pelos nacionais. “Se não fossem os que vêm de fora provavelmente só tínhamos um mestrado em funcionamento, assim temos sete em curso. Não temos só alunos de língua portuguesa, pois temos também de Marrocos, Tunísia e outros”, acrescentou.

Publicado em ‘Mensageiro‘.

IPB impõe-se na cooperação com países lusófonos no ensino agrário

O IPB tem-se afirmado no desenvolvimento de projectos de cooperação com os países lusófonos nomeadamente a nível agrícola.
A aposta que tem vindo a crescer, vai reflectir-se agora na promoção de um mestrado conjunto de Agro-Ecologia, que vai ser criado no Instituto Superior Politécnico de Gaza, em Moçambique, com a ajuda da Escola Superior Agrária.
É o primeiro mestrado da instituição e vai arrancar na comemoração do décimo aniversário da escola superior moçambicana. Hortêncio Comissal, director do Instituto Superior Politécnico de Gaza, refere que a colaboração do IPB será essencial para o desenvolvimento desta oferta formativa, já que “80 por cento dos docentes serão do IPB”. “Portugal está muito avançado na investigação. O IPB e outras instituições portuguesas vão ajudar-nos a desenvolver essa área da investigação e a formar os nossos quadros”.
Na cooperação de três anos com o IPB, já houve a formação em Bragança de mais de uma dezena de professores do instituto moçambicano, que frequentaram mestrados. É um dos vários exemplos que se repete em diversos países africanos de língua oficial portuguesa “O IPB tem cooperação com quase todos os países lusófonos com a ida de professores do IPB por alguns períodos de tempo”, adianta Albino Bento, o presidente da Escola Superior Agrária de Bragança.
A cooperação com países lusófonos tem vindo a intensificar-se, e tem contribuído para “o desenvolvimento das instituições e desses países”. As parcerias e os instrumentos para financiar as colaborações entre instituições de ensino foram assuntos debatidos na reunião da associação de ensino superior em ciências agrárias dos países de língua portuguesa, que aconteceu nos últimos dois dias no IPB.

Publicado em ‘Rádio Brigantia‘.

Estudantes festejaram os 40 anos da independência de Angola

A comunidade angolana em Bragança assinalou o 40º aniversário da Independência de Angola numa sessão realizada no Instituto Politécnico, onde estudam cerca de 60 alunos angolanos, que consideram a data marcante.
O vice-cônsul de Angola, José Tavares, que participou nas comemorações, pediu aos jovens que após a conclusão do curso regressem ao país para levar conhecimento. “Levem também empresários e investimento no ramos da educação, saúde e construção”, uma vez que em Angola faltam quadros superiores. O responsável ficou muito bem impressionado com o IPB e considera que estudar na região “é uma boa oportunidade para os angolanos”. Os estudantes angolanos organizaram também uma mostra sobre Angola no pátio da cantina do IPB para divulgar a sua cultura.
Os jovens estão bem integrados na cidade, por onde já passaram mais de 80 estudantes desta nacionalidade.

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Representante de Angola frisa importância da formação de quadros superiores no IPB

O vice-cônsul de Angola no Porto, José Tavares, frisou a importância da formação superior que os alunos do país estão a receber no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), para fazer face ao que é considerado um dos maiores problemas naquele país actualmente, a falta de quadros qualificados.
“É aberrante a falta de quadros em Angola desde o pós-independência até agora. Estamos a formar lá e mesmo assim ainda não temos o suficiente, temos de recorrer ao exterior”, garante.
O representante da república angolana esteve ontem no IPB para as comemorações alusivas aos 40 anos de independência de Angola. Cerimónia na qual José Tavares desafiou os mais de 60 estudantes angolanos do IPB a regressarem ao país e levarem consigo na bagagem “investimento português ou empresários nos ramos da educação, saúde, agricultura e construção. Podem levar e têm aqui muito know-how”.
Por seu turno, o presidente do IPB, Sobrinho Teixeira, espera que o impacto para a região da passagem destes estudantes se prolongue para além da sua estadia. “Não importa só o número de estudantes que temos cá agora, para o IPB e para a economia regional. Mas também o que estes estudantes representam em Angola, sendo eles próprios já professores de instituições de ensino de superior públicas. É uma ligação de grande interesse para a região e empresários. Seria importante estabelecer pontes com estes estudantes e que houvesse a disponibilização de estágios e de trabalho nas empresas na região, porque estamos a falar de estudantes que representam o futuro do ensino superior e dos quadros angolanos”, referiu o representante do IPB.
Até ao momento, já passaram pelo Instituto Politécnico de Bragança 82 estudantes angolanos, a maioria em mestrados. Espera-se que no próximo ano se ultrapasse a centena de alunos oriundos daquele país.

Publicado em ‘Rádio Brigantia‘.

Estratégia de combate à fome na CPLP começou a ser delineada no IPB

O Instituto Politécnico de Bragança (IPB) vai participar na definição de uma estratégia para o combate à fome e a manutenção da segurança alimentar nos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), adiantou Hélder Muteia, representante da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura) em Portugal, à margem da primeira Reunião do Comité de Coordenação do Mecanismo de Facilitação da Participação das Universidades no CONSAN- CPLP, que teve lugar na Escola Superior Agrária na quinta e sexta-feira.
Este primeiro encontro teve como objectivo “refletir sobre o problema”, referiu aquele responsável, bem como sobre a participação dos diferentes atores da academia, sociedade civil e comunidade empresarial nos sistemas agro-alimentares e de segurança alimentar para “garantir a governança participativa em que possamos pôr em consideração todos os factores importantes”, acrescentou. A complexidade dos sistemas agro-alimentares requer a participação de multi-actores para definir prioridades e um plano de acção.
Sobrinho Teixeira, presidente do IPB, considera importante a união dos países da CPLP para combater a fome, que já constituíram um comité para aconselhar sobre a estratégia a seguir, no qual as instituições de ensino superior têm uma palavra a dizer. “A escolha de Bragança para a primeira reunião é simbólica e tem que ver com o facto de o IPB ser uma referência nos países da comunidade da lusofonia. Temos vários mestrados de referência na área, como o da Qualidade e Segurança Alimentar, que já foi lecionado em São Tomé e será ministrado em Moçambique, e temos cá diversos alunos e docentes de Angola, Cabo Verde e Timor”, referiu. O IPB disponibiliza ainda outros mestrados, com Agroecologia e Agricultura Tropical, este último é único no país. “Temos capacidade instalada para dar formação e apoio”, acrescentou.
Em causa está a garantia de disponibilidade e o acesso aos alimentos em vários países onde ainda há carências, mas também do posto de vista social para garantir dignidade e possibilitar o desenvolvimento económico. “Os pequenos produtores e agricultores são fundamentais neste processo para ajudar a aumentar a disponibilidade dos alimentos e ajudando a encontrar as melhores soluções sustentáveis”, explicou Hélder Muteia. Cerca de 70% dos alimentos que são consumidos nestes países provêm da pequena agricultura, pelo que o representante da FAO defende um aumento dos apoios e políticas públicas adequadas ao sector, bem como a existência de mercado “pois muitas vezes são relegados para segundo plano e negligenciados”.
No universo total da população dos países da CPLP, cerca de 200 milhões de habitantes, 22 milhões passam fome. “Um número inaceitável”, afirmou Hélder Muteia que considera que a comunidade tem que fazer alguma coisa e materializar a estratégia em acções concretas que passam pela cooperação, partilha de tecnologias e de informação sobre o mercado. “Temos de avançar de forma mais decisiva e mostrar que não pactuamos com esta situação que não dignifica a humanidade”, destacou. A próxima reunião vai decorrer em Timor Leste.

Publicado em ‘Mensageiro‘.

Bragança recebe 1200 alunos estrangeiros

Sociedade das nações
Chegam da China, do Peru, da Síria ou do Senegal. O Instituto Politécnico de Bragança apostou forte na captação de alunos estrangeiros – este ano receberá l 200, de 25 países diferentes

 Descontraído, de andar gingão, Hebert Camilo responde com um sorriso à admiração de Olga Padrão, secretária da direção do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), por andar de chinelos de enfiar o dedo num dia chuvoso e frio. Além do acentuado sotaque de Minas Gerais, o jovem de 21 anos, chegado em setembro ao nordeste transmontano, veio equipado com roupa leve, pouco apropriada para o rigoroso inverno que se aproxima. «Tem problema, não», garante.
Apesar das dificuldades com o termóstato, o jovem estudante do 3.° ano de Engenharia Agronómica está a adorar a experiência portuguesa. De tal forma que, dois meses após a chegada a Bragança, já começou a tratar das burocracias para prolongar a estadia inicialmente prevista para um semestre, mas que ele agora quer estender a dois. «A cidade é pequena mas recebe bem a ‘gente’ e estou gostando muito da experiência. O Instituto está bem equipado e as aulas são muito interessantes», adianta, em jeito de justificação. Hebert chegou a Bragança ao abrigo de um protocolo com o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. No seu caso, o programa de intercâmbio prevê que o IPB se responsabilize pelo alojamento e refeições, enquanto a sua universidade de origem lhe assegurou as passagens aéreas e uma bolsa de três mil euros por semestre.
O jovem mineiro é apenas um dos 650 alunos estrangeiros – num universo de cerca de seis mil estudantes – que atualmente frequentam o IPB. Números que pecam ainda por defeito uma vez que há muitos inscritos ainda à espera de visto para fixar residência em Trás-os-Montes – os casos mais complicados têm sido os de alunos provenientes de países africanos que foram afetados pela epidemia de ébola, como a Libéria e a Serra Leoa, o que fez complicar as burocracias. Além disso, tal como sucedeu em anos anteriores, e a avaliar pelas inscrições já efetuadas e os processos em fase de aceitação, é de esperar que no segundo semestre o número de alunos chegue aos 1200 (mais 300 que no ano passado). Números impressionantes, numa cidade com pouco mais de 23 mil habitantes e onde, segundo um estudo recente encomendado pelo Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, o peso desta instituição na economia local é superior a 11 por cento do Produto Interno Bruto – o valor mais elevado do País.

Bragança lidera o ‘ranking’ dos politécnicos e cobra as propinas mais baixas do País
O IPB está atualmente no ranking das dez melhores instituições de ensino superior a nível nacional – o primeiro entre os politécnicos – e, em boa medida, isso também contribui para facilitar a captação de alunos através de convénios com instituições espalhadas pelo mundo fora. Além dos que chegam ao abrigo do programa Erasmus, provenientes da União Europeia, o maior contingente vem de paragens tão diversas como o Turquemenistão, China, Timor-Leste, Paquistão, Síria, México ou Peru, só para referir alguns dos mais distantes dos 25 países ali representados. Para o sucesso dessas «formas pró-ativas ou menos ortodoxas», na expressão do vice-presidente Luís Pais, contribuem ainda as propinas mais baixas (755 euros, para estudantes de licenciatura nacionais, e 1100, para os internacionais) e o facto de haver já vários cursos lecionados exclusivamente em inglês.

Hospitalidade transmontana

Exemplo sólido de uma integração feliz é o de Auro dos Santos. O cabo-verdiano, de 24 anos, chegou a Bragança em 2009 e diz que se sente em casa, «tal como todos os alunos africanos», os maiores contribuintes da larga comunidade estrangeira do IPB. A Associação de Estudantes Africanos representa peno de 400 alunos, a maioria deles de Cabo Verde, mas também muitos são-tomenses e angolanos. Sentindo-se em casa, já criaram uma equipa de futebol que alinha nos distritais de Bragança, uma equipa de futsal feminina, um grupo de dança, um conjunto musical (AfroBanda) e, para breve, prometem um grupo de teatro. Além disso, explica Auro, que preside à associação, «ajudamos muitos alunos a tratar de toda a burocracia para aqui chegar». A terminar o mestrado em Tecnologia Biomédica, depois de ter completado a licenciatura, vê aproximar-se a passos largos a hora de regressar a Cabo Verde e já começa a sentir saudades. «A minha adaptação foi cinco estrelas, nunca tive problemas e, se é verdade que quero ajudar ao desenvolvimento do meu país, também é certo que Bragança vai ficar sempre no meu coração.»
Tal como Auro dos Santos, também os habitantes da cidade se afeiçoaram e habituaram já à presença dos alunos estrangeiros. A chegada de sangue-novo estava a fazer falta, para dinamizar o comércio da cidade. Aos 75 anos, Vitalino Miranda e a mulher, Maria de Lurdes, mantêm a pequena mercearia, com quase meio século, de portas abertas, apenas porque funciona no rés-do-chão da sua casa e não pagam renda. «O centro histórico hoje está quase deserto. Levaram daqui os serviços e as pessoas começaram também a sair porque as casas estão velhas… e as que foram arranjadas têm rendas muito caras», considera Vitalino. Hoje, são os jovens da renovada residência universitária os poucos clientes que têm. «Nós queremos é vê-los cá, e que levem umas comprinhas. Mas a gente sabe que eles também não trazem dinheiro à larga e são muito regrados. Perguntam sempre pelo preço antes de levar alguma coisa… não é verdade?», atira. para Alexandre Ximenes, um jovem timorense de 19 anos, mais fluente em inglês do que em português, que consente com um sorriso envergonhado. Acabou de chegar a Bragança, para iniciar a licenciatura em Engenharia Informática, com uma bolsa de estudo concedida pelo Institut of Business de Díli, com quem o IPB tem uma parceria, e também ele está fascinado com a cidade. «As pessoas são muito simpáticas», arrisca, num português razoável, ao lado de Peltier Aguiar, um angolano de 26 anos, estudante de Agroecologia e que vive com ele na residencial Domus. É o africano que hoje faz de cicerone, acompanhando o timorense às compras. «Quando precisamos de alguma coisa vimos aqui à mercearia ou então vamos à loja do senhor Valdemar. Mesmo que tenha a porta fechada, basta tocar à campainha que ele atende-nos a qualquer hora», explica.
Gil Gonçalves, um dos atarefados elementos do Gabinete de Relações Internacionais, encarregue dos processos burocráticos dos alunos estrangeiros, não se mostra surpreendido com a boa reação dos habitantes. «Somos transmontanos, é a nossa forma de ser. Aqui, primeiro mandamos entrar; só depois perguntamos quem é.»

Publicado em ‘Visão’ nº1133, 20 a 26 novembro 2014.