Desemprego jovem aumenta procura de cursos de Agronomia

O aumento do desemprego entre os jovens está a levar a um crescimento da procura de cursos da área de Agronomia, adiantou o Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), que participou no I Congresso Nacional das Escolas Superiores Agrárias (CNESA), que decorreu quarta e quinta-feira em Bragança. Joaquim Mourato admitiu que durante uns anos “estes cursos tiveram uma quebra na procura, mas nos últimos dois anos estamos a ter sinais de uma quebra e um abrandamento em algumas áreas das Ciências Agrárias”. A retoma na procura dá um sinal de esperança aos responsáveis das Escolas Superiores Agrárias que acreditam que “a agricultura e a pecuária vão melhorar e surgirão muitos projetos inovadores que darão lugar a empresas e permitirão criar emprego”, destacou o presidente do CCISP. “Onde há emprego obviamente há procura e o ensino superior vai beneficiar desse crescimento”, realçou.

Oito Agrárias no debate
O I Congresso juntou em Bragança oito escolas superiores agrárias do país e mais de 200 investigadores, o que confirma a importância crescente da agricultura e a vitalidade das instituições de ensino superior que driblaram a crise. Nos anos 80 e 90 houve uma quebra acentuadíssima no setor da agricultura e consequentemente a procura caiu.
Os cursos de Agronomia não captam muitos alunos do Concurso Nacional de Acesso, todavia atraem o público adulto, “que completam as vagas disponíveis”, reconheceu o responsável do CCISP, que defendeu que as escolas superiores agrárias deviam disponibilizar cursos de doutoramento.
Sobrinho Teixeira, presidente do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) notou que os dados disponibilizados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional indicam que os jovens licenciados nas área da Agronomia têm das mais baixas taxas de desemprego, na ordem dos 3%. “A agricultura revelou-se nestes anos de crise uma reserva estratégica nacional e uma das áreas que mais exportou”, destacou. O presidente do IPB considera que é preciso fazer uma mudança de paradigma, porque os jovens quando saem do 12º ano “dificilmente escolhem a área agrícola porque têm a ideia dos agricultores com mais de 60 anos e é uma vida que não querem”. Acabam por mudar de opinião “quando frequentam os cursos de especialização tecnológica e os cursos superiores profissionais, que os levam a mudar as escolhas e voltam-se para a área agícola”.

“É preciso inteligência para desenvolver a agricultura”
O anterior secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agro-alimentar, Nuno Vieira e Brito, que participou no congresso, considera que o momento atual “é crucial” para a agricultura transmontana “por se estar na fase apoios comunitários”, pelo que sugere a definição de estratégias de desenvolvimento em áreas fundamentais como o azeite, a transformação de produtos locais à base de raças autóctones, os vinhos, castanha e frutos secos.
“Estes setores têm cada vez mais atração dos mercados internacionais e maior procura, além de que é preciso aproveitar a ideia da alimentação saudável”, sublinhou Nuno Vieira e Brito, que defende que além de criar escala é preciso apostar “na inovação e na transformação”. O setor creceu nos últimos anos. “Há fundos, agora é preciso inteligência para desenvolver a agricultura e o setor agro-alimentar, criando pequenas empresas, produzir bem e comercializar melhor”, referiu. Nuno Vieira e Brito acredita que a agricultura pode absorver jovens qualificados que se forma em cursos de Agronomia.

Publicado em ‘Mensageiro‘.

Inovação em destaque no I Congresso Nacional de Escolas Agrárias

A investigação e a inovação no sector primário estiveram em destaque no I Congresso Nacional de Escolas Superiores Agrárias que decorreu em Bragança no Instituto Politécnico.
Mais de duas centenas de instigadores participaram na iniciativa onde foram apresentados vários trabalhos de investigação desenvolvidos nas 8 escolas superiores agrárias do País.
Um deles foi o projecto de uma das equipas que trabalha no Centro de Investigação e Montanha do IPB na área agroalimentar. Produzir corantes e conservantes a partir de plantas e cogumelos para eliminar ou reduzir os níveis de toxicidade que os químicos tradicionais apresentam nos alimentos tem sido o trabalho desenvolvido nos últimos anos. “Começámos a fazer estudos de aplicação de algumas plantas e cogumelos que se revelaram mais promissoras, para as incorporar em alimentos para substituir aditivos químicos, como corantes e conservantes”, esclarece a investigadora Isabel Ferreira.
Albino Bento, presidente da Agrária de Bragança e membro da organização do evento defende que o sector primário é bastante inovador actualmente, o que se deve em grande parte ao trabalho de investigação desenvolvido nas escolas superiores. “Os politécnicos têm a sua quota parte de responsabilidade na inovação no sector agroalimentar e têm uma dimensão apreciável no contexto professores e investigadores que trabalha no país”, salienta.
Dentro de dois anos os representantes e investigadores das escolas superiores agrárias nacionais vão reunir-se novamente, o próximo congresso será em Portalegre.

Publicado em ‘Rádio Brigantia‘.

Vantagens de fazer o curso no politécnico

Politécnicos querem atribuir doutoramentos profissionais e mudar a designação para universidades de ciências aplicadas.
Os politécnicos portugueses pedem duas coisas fundamentais ao Governo: querem atribuir doutoramentos e alterar o seu nome para universidades de ciências aplicada, como se designam na maioria dos outros países europeus. As duas reivindicações foram apresentadas ao Diário Económico por Joaquim Mourato, o presidente do CCISP–Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos – após uma reunião europeia que trouxe a Lisboa cerca de 200 representantes das instituições equivalentes de outros países da Europa.
Joaquim Mourato explica, primeiro que tudo, porque faz sentido incluir o doutoramento nos politécnicos. “Devem existir no ensino de cariz profissionalizante todos os níveis de Bolonha, desde o ciclo mais curto até ao doutoramento de natureza profissional. Temos bons exemplos na Europa e no mundo. Para fazermos investigação aplicada, temos de ter formação avançada a nível de mestrado e doutoramento”, defende.
O presidente do CCISP, que é presidente do Politécnico de Portalegre, foi o anfitrião do encontro europeu, onde foram apresentadas as recomendações e linhas de orientação da European Association of Institutions in Higher Education (EURASHE) – que reúne as instituições de ensino superior de cariz profissionalizante da Europa, ou seja, equivalentes aos politécnicos portugueses – para levar ao encontro de ministros europeus da Educação que vai decorrer já em Maio, na capital de Yerevan, na Arménia.
Será ainda levada aos ministros a necessidade de aumentar as parcerias entre estas instituições de ensino e as empresas. E aqui não são só as empresas que têm de responder ao apelo, mas também “tem de ser um propósito do próprio Governo”, sublinha este responsável. “É importante que as empresas participem, desde logo, na organização dos currículos dos próprios cursos”, defende Joaquim Mourato, para quem é essencial uma ligação profunda, com as aulas muito orientadas para as profissões e comum envolvimento muito grande das empresas. Até porque assim, defende, poderá também resultar com maior sucesso a investigação aplicada.

Apoiar empresas que integrem os estudantes
Esta ligação estreita com as empresas é a maior aliada da empregabilidade, em seu entender. “É a maior garantia que damos aos estudantes de poderem adquirir as competências adequadas para o mercado de trabalho. E, por outro lado, a garantia de que terão o primeiro contacto directo com o mercado de trabalho”, sublinha o presidente do CCISP. Joaquim Mourato avança mesmo com uma sugestão para o Governo português: “Temos um novo QCA, que pode ser muito útil na integração dos jovens no mercado de trabalho. As empresas seriam apoiadas para empregar os estudantes nos primeiros seis ou 12 meses de inserção no mercado de trabalho. Era uma forma muito interessante de ajudar esta articulação”, acrescenta o responsável.
A recomendação é clara e é levada pela EURASHE ao encontro dos ministros do próximo mês: só com maior ligação às empresas se aproximará o ensino das necessidades do mercado de trabalho, ao mesmo tempo que se promove a empregabilidade dos recém-graduados, assim como a formação ao longo da vida, de forma a garantir profissionais competentes e adaptados às necessidades do mercado.
Joaquim Mourato apela ainda ao apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) a centros de investigação aplicada, com outros critérios de atribuição que não os que avaliam a produção científica. Critérios que avaliem a transferência de tecnologia para as empresas, os resultados do trabalho dessa investigação para as mesmas, o impacto regional, etc. Ou seja, avaliar a actividade das instituições com outros indicadores. Andreas Orphanides, presidente da EURASHE, referiu, na conferência de Lisboa, que “é importante definir o futuro, com investigação e criatividade, de forma a identificar soluções”, defendendo o potencial de uma “participação interdisciplinar” entre todos.

“Defendemos a junção dos politécnicos”

Joaquim Mourato, o presidente do conselho coordenador dos politécnicos portugueses, vê com bons olhos a fusão de instituições e reorganização da rede de politécnicos, sempre em colaboração com as empresas e com um projecto educativo virado para as suas necessidades, com uma forte aposta regional. Só que o Governo não mostrou abertura para tal proposta do CCISP. Entretanto, os politécnicos reclamam 200 milhões de euros de reposição do Orçamento de Estado. E dizem que o ‘deadline’ está a chegar, porque não têm dinheiro para pagar os subsídios de férias.
Qual é o país que os politécnicos portugueses consideram como modelo bem sucedido na forma como engloba o ensino profissionalizante no superior? 
O modelo irlandês. Os institutos tecnológicos na Irlanda estão a conferir o grau de doutoramento e têm uma relação muito boa, muito próxima com as empresas. É um modelo que está muito bem desenvolvido, com óptimos resultados. Os 13 institutos tecnológicos na Irlanda, equivalentes aos nossos politécnicos, são hoje universidades tecnológicas, juntaram-se dois a dois ou três a três e desenharam projectos educativos conjuntos. Nós também já lançámos essa proposta em Portugal. A junção de dois ou três politécnicos para se transformarem numa universidade tecnológica com um projecto muito próximo de trabalho de colaboração com empresas identificadas nas respectivas regiões,com oferta formativa muito direccionada para as necessidades dessas empresas e com oferta até ao grau de doutoramento profissional.
Quer dizer que vê com bons olhos a fusão de politécnicos em Portugal? 
O CCISP apresentou essa proposta e já a referi por várias vezes. Estou na disponibilidade de olhar para um projecto desse tipo, para a reorganização de algumas instituições, dentro da sua autonomia, comum projecto educativo comum, que teria outras ambições e posicionamento. É razoável e desejável que isso aconteça, mas nunca houve abertura do Governo para avançar. Várias instituições já se concertaram nesse sentido, mas esse tipo de projecto não foi aceite.
Como estão a viver os politécnicos os constrangimentos orçamentais deste ano? 
Estimamos em 20 milhões de euros a verba de que necessitamos, como resultado do impacto da decisão do Tribunal Constitucional e das alterações introduzidas na Lei do OE. Mais mês, menos mês, vamos ter problemas e o ‘deadline’ está a chegar. Não teremos capacidade para pagar os subsídios de férias.

 Publicado em ‘Diário Económico Nº 6155 | 20 Abril 2015’.

CCISP – Tomada de posse

O SNESup esteve ontem presente em Bragança, na tomada de posse do Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, que teve lugar em conjunto com as comemorações dos 30 anos do Politécnico de Bragança. Enviamos os parabéns a este politécnico que continua perseverante na sua luta contra a interioridade, com uma saudação especial aos colegas desta instituição, e cujo mérito merece ser reconhecido. Apresentamos também os nossos cumprimentos ao Presidente do CCISP, com votos de bom trabalho, aguardando-se para breve uma reunião de trabalho sobre questões essenciais sobre o ensino superior politécnico.
Das várias intervenções convém destacar a oração de sapiência do Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), David Justino. A reflexão, em torno da Lei de Bases do Ensino, tocou um ponto em comum com o SNESup, na necessidade de pensar uma estratégia para o ensino superior. Este debate tem vindo a atravessar os nossos encontros e estamos de acordo sobre o papel que o CNE pode desempenhar nesta matéria. Em Bragança, o Presidente do CNE foi ousado nas suas propostas, contrastando com a visão bastante datada do ministro. Para além do consenso, o debate destas questões permite abrir um espaço que parece fechado na sociedade portuguesa. O SNESup já demonstrou que consegue reunir no mesmo espaço vários elementos com posições diferentes, dando azo a que se trabalhe o futuro. As pontes que o CNE procura passam por aqui. Vejamos se é possível um desenvolvimento.

Publicado em ‘InfoSNESup nº 224‘.

Presidente do Conselho dos Institutos Politécnicos preocupado com cortes no ensino superior

No dia do IPB, que assinalou os 32 anos da instituição, decorreu a tomada de posse do presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Joaquim Mourato, presidente do Instituto Politécnico de Portalegre iniciou assim o segundo mandato à frente deste órgão. O professor mostrou-se preocupado com os cortes no financiamento do ensino superior, que este ano vão ser mais acentuados do que em 2014.
“Em 2015 temos um corte em adicional relativamente a 2014 e em 2014 tivemos um corte adicional em relação ao ano anterior. Estamos a falar de uma sucessão de anos com cortes. É evidente que se, em 2014, as instituições tiveram dificuldade para honrar os seus compromissos, algumas tiveram que utilizar saldos que dispunham de anos anteriores, outras tiveram de fazer reforços adicionais, é evidente que com mais um corte, este ano vai ser pior. Vamos ter situações complicadas para honrar os compromissos assumidos”, frisa o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos. Joaquim Mourato defendeu ainda a necessidade de repensar o programa “+ Superior”, criado para atrair estudantes do litoral para o interior . O responsável considera essencial mudar a época de lançamento do programa e perceber quais os cursos que precisam de mais alunos. “Este programa foi aplicado, essencialmente, a estudantes que já estavam nas instituições e não atraindo novos estudantes. É por isso que dizemos que ainda não foi suficientemente eficaz. A nossa proposta é lançar o programa na primavera, para os estudantes interessados conhecerem o programa a tempo e poderem tomar a sua decisão e perguntar às instituições quais os cursos em que se pretende a vinda desses estudantes. Porque, com base na classificação do secundário mais elevada, evidentemente que os alunos vão ser colocados nos cursos que, à partida, já estão cheios”, sublinha o professor. Em Bragança, 109 alunos estudam no Instituto Politécnico através do programa + Superior, que se traduz numa bolsa de cerca de mil euros por ano, de forma a garantir o pagamento das propinas.

Publicado em ‘Rádio Brigantia‘.

Bragança recebe 1200 alunos estrangeiros

Sociedade das nações
Chegam da China, do Peru, da Síria ou do Senegal. O Instituto Politécnico de Bragança apostou forte na captação de alunos estrangeiros – este ano receberá l 200, de 25 países diferentes

 Descontraído, de andar gingão, Hebert Camilo responde com um sorriso à admiração de Olga Padrão, secretária da direção do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), por andar de chinelos de enfiar o dedo num dia chuvoso e frio. Além do acentuado sotaque de Minas Gerais, o jovem de 21 anos, chegado em setembro ao nordeste transmontano, veio equipado com roupa leve, pouco apropriada para o rigoroso inverno que se aproxima. «Tem problema, não», garante.
Apesar das dificuldades com o termóstato, o jovem estudante do 3.° ano de Engenharia Agronómica está a adorar a experiência portuguesa. De tal forma que, dois meses após a chegada a Bragança, já começou a tratar das burocracias para prolongar a estadia inicialmente prevista para um semestre, mas que ele agora quer estender a dois. «A cidade é pequena mas recebe bem a ‘gente’ e estou gostando muito da experiência. O Instituto está bem equipado e as aulas são muito interessantes», adianta, em jeito de justificação. Hebert chegou a Bragança ao abrigo de um protocolo com o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. No seu caso, o programa de intercâmbio prevê que o IPB se responsabilize pelo alojamento e refeições, enquanto a sua universidade de origem lhe assegurou as passagens aéreas e uma bolsa de três mil euros por semestre.
O jovem mineiro é apenas um dos 650 alunos estrangeiros – num universo de cerca de seis mil estudantes – que atualmente frequentam o IPB. Números que pecam ainda por defeito uma vez que há muitos inscritos ainda à espera de visto para fixar residência em Trás-os-Montes – os casos mais complicados têm sido os de alunos provenientes de países africanos que foram afetados pela epidemia de ébola, como a Libéria e a Serra Leoa, o que fez complicar as burocracias. Além disso, tal como sucedeu em anos anteriores, e a avaliar pelas inscrições já efetuadas e os processos em fase de aceitação, é de esperar que no segundo semestre o número de alunos chegue aos 1200 (mais 300 que no ano passado). Números impressionantes, numa cidade com pouco mais de 23 mil habitantes e onde, segundo um estudo recente encomendado pelo Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, o peso desta instituição na economia local é superior a 11 por cento do Produto Interno Bruto – o valor mais elevado do País.

Bragança lidera o ‘ranking’ dos politécnicos e cobra as propinas mais baixas do País
O IPB está atualmente no ranking das dez melhores instituições de ensino superior a nível nacional – o primeiro entre os politécnicos – e, em boa medida, isso também contribui para facilitar a captação de alunos através de convénios com instituições espalhadas pelo mundo fora. Além dos que chegam ao abrigo do programa Erasmus, provenientes da União Europeia, o maior contingente vem de paragens tão diversas como o Turquemenistão, China, Timor-Leste, Paquistão, Síria, México ou Peru, só para referir alguns dos mais distantes dos 25 países ali representados. Para o sucesso dessas «formas pró-ativas ou menos ortodoxas», na expressão do vice-presidente Luís Pais, contribuem ainda as propinas mais baixas (755 euros, para estudantes de licenciatura nacionais, e 1100, para os internacionais) e o facto de haver já vários cursos lecionados exclusivamente em inglês.

Hospitalidade transmontana

Exemplo sólido de uma integração feliz é o de Auro dos Santos. O cabo-verdiano, de 24 anos, chegou a Bragança em 2009 e diz que se sente em casa, «tal como todos os alunos africanos», os maiores contribuintes da larga comunidade estrangeira do IPB. A Associação de Estudantes Africanos representa peno de 400 alunos, a maioria deles de Cabo Verde, mas também muitos são-tomenses e angolanos. Sentindo-se em casa, já criaram uma equipa de futebol que alinha nos distritais de Bragança, uma equipa de futsal feminina, um grupo de dança, um conjunto musical (AfroBanda) e, para breve, prometem um grupo de teatro. Além disso, explica Auro, que preside à associação, «ajudamos muitos alunos a tratar de toda a burocracia para aqui chegar». A terminar o mestrado em Tecnologia Biomédica, depois de ter completado a licenciatura, vê aproximar-se a passos largos a hora de regressar a Cabo Verde e já começa a sentir saudades. «A minha adaptação foi cinco estrelas, nunca tive problemas e, se é verdade que quero ajudar ao desenvolvimento do meu país, também é certo que Bragança vai ficar sempre no meu coração.»
Tal como Auro dos Santos, também os habitantes da cidade se afeiçoaram e habituaram já à presença dos alunos estrangeiros. A chegada de sangue-novo estava a fazer falta, para dinamizar o comércio da cidade. Aos 75 anos, Vitalino Miranda e a mulher, Maria de Lurdes, mantêm a pequena mercearia, com quase meio século, de portas abertas, apenas porque funciona no rés-do-chão da sua casa e não pagam renda. «O centro histórico hoje está quase deserto. Levaram daqui os serviços e as pessoas começaram também a sair porque as casas estão velhas… e as que foram arranjadas têm rendas muito caras», considera Vitalino. Hoje, são os jovens da renovada residência universitária os poucos clientes que têm. «Nós queremos é vê-los cá, e que levem umas comprinhas. Mas a gente sabe que eles também não trazem dinheiro à larga e são muito regrados. Perguntam sempre pelo preço antes de levar alguma coisa… não é verdade?», atira. para Alexandre Ximenes, um jovem timorense de 19 anos, mais fluente em inglês do que em português, que consente com um sorriso envergonhado. Acabou de chegar a Bragança, para iniciar a licenciatura em Engenharia Informática, com uma bolsa de estudo concedida pelo Institut of Business de Díli, com quem o IPB tem uma parceria, e também ele está fascinado com a cidade. «As pessoas são muito simpáticas», arrisca, num português razoável, ao lado de Peltier Aguiar, um angolano de 26 anos, estudante de Agroecologia e que vive com ele na residencial Domus. É o africano que hoje faz de cicerone, acompanhando o timorense às compras. «Quando precisamos de alguma coisa vimos aqui à mercearia ou então vamos à loja do senhor Valdemar. Mesmo que tenha a porta fechada, basta tocar à campainha que ele atende-nos a qualquer hora», explica.
Gil Gonçalves, um dos atarefados elementos do Gabinete de Relações Internacionais, encarregue dos processos burocráticos dos alunos estrangeiros, não se mostra surpreendido com a boa reação dos habitantes. «Somos transmontanos, é a nossa forma de ser. Aqui, primeiro mandamos entrar; só depois perguntamos quem é.»

Publicado em ‘Visão’ nº1133, 20 a 26 novembro 2014.

Temos o melhor Politécnico do país

Estudo encomendado pela União Europeia coloca o IPB no topo do ranking nacional dos Politécnicos, sétima melhor instituição de ensino superior do país

Dois estudos recentes e ambos independentes colocam o Instituto Politécnico de Bragança como uma das melhores e mais influentes instituições de ensino superior de Portugal.
O projeto Multirank, da União Europeia, arrancou em 2011 e começa, agora, a produzir resultados, tendo divulgado as dez melhores instituições de ensino superior de Portugal, de um total de 850 instituições de todo o país que entraram neste estudo.
Com vários parâmetros medidos, como o Ensino e Aprendizagem, a Pesquisa, a Transferência do Conhecimento, a Orientação Internacional e o Envolvimento Regional, o Instituto Politécnico de Bragança foi considerado o melhor politécnico do país, sétima melhor instituição de ensino superior.
“Aparecem as dez melhores instituições europeias e as dez melhores nacionais, que resultam da soma dos cinco indicadores. É um orgulho muito grande, estamos a sentir isso, o facto de o IPB estar entre as dez melhores instituições nacionais e o melhor politécnico a nível nacional”, frisou ao Mensageiro o presidente da instituição, Sobrinho Teixeira.
O mesmo responsável considera que os resultados poderiam ser ainda melhores, com um pouco mais de apoio por parte dos alunos. “Ainda poderíamos subir se o sucesso escolar fosse superior. Na investigação, internacionalização e ligação à região estamos muito bem”, sublinha. Sobrinho Teixeira diz que esta classificação acaba por significar um compromisso maior com a qualidade. “Responsabiliza-nos para nos superarmos cada vez mais e conseguirmos cada vez mais e melhor”, sustenta o docente.

No cômputo geral, o desempenho do IPB é “muito bom”. A produção artística, as spinoff, a mobilidade estudantil, a quantidade de alunos licenciados que ficam a trabalhar na região, o número de citações ou o rendimento obtido junto de fontes locais são alguns dos pontos em que o IPB consegue a classificação máxima (A) deste ranking. Por outro lado, a conclusão de mestrados e a conclusão de mestrados dentro do prazo estipulado são alguns dos pontos a requererem melhorias. O Multirank é uma nova ferramenta de avaliação de instituições de ensino superior mundiais, tendo analisado 850. Está a ser promovido pela União Europeia. A nível nacional, a instituição melhor classificada é a Universidade Nova de Lisboa. Entre as dez melhores aparecem apenas dois politécnicos. O de Bragança, no sétimo lugar, e o de Viana do Castelo, em nono. A nível internacional, a instituição melhor cotada é o Instituto Tecnológico de Zurique, na Suíça.

Publicado em ‘MdB‘.

Peso do IPB na região é cada vez maior

Por cada euro que o Estado investe no IPB, o Estado consegue um retorno, em cobrança de impostos, de quatro euros.

Não é por acaso que o Instituto Politécnico de Bragança é considerado o melhor do país. O seu peso na economia do Nordeste Transmontano é cada vez maior, como fica patente num outro estudo, realizado a pedido do Conselho Consultor dos Institutos Politécnicos (CCSISP).
De acordo com esse estudo, o de Bragança é o politécnico com maior peso na sua região, chegando mesmo a atingir, pelo menos, os 11 por cento do PIB local. “Esse foi um estudo feito em diversas instituições, nomeadamente no litoral e no Interior e veio demonstrar, de facto, a importância que as instituições de Ensino Superior têm no desenvolvimento económico das regiões onde se inserem. Esse estudo é demonstrativo. O Politécnico de Bragança é o caso em que a situação é mais notória. No estudo é referido que uma percentagem assinalável do PIB da região deve-se à indução direta que o Politécnico de Bragança faz na região.”, explica o presidente do IPB, Sobrinho Teixeira.
O mesmo responsável destaca, por outro lado, a “leveza” no Orçamento de Estado quando comparado com outras instituições. “Há pouco tempo fizemos um encontro dos sete politécnicos e três universidades do Interior. Se somarmos a parte do Orçamento do Estado que é transferido para estas dez instituições, é menos um ponto percentual do que, por exemplo, a Universidade de Lisboa recebe. O orçamento destes instituições representa 17 por cento do peso orçamental do Ensino Superior enquanto a Universidade de Lisboa representa mais do que estas dez (18 por cento). É bom que o país saiba o esforço que está a fazer face ao retorno que o país está a ter”, sublinha Sobrinho Teixeira.

“O trabalho e aquilo que estas dez instituições fazem em prol da coesão territorial é um trabalho imenso e um retorno imenso face a uma percentagem extraordinariamente baixa que o país tem de fazer em termos do apoio financeiro que dá, inferior ao de uma única instituição.” No caso de Bragança, esse aspeto é mais centrado. Mas uma das coisas que o estudo não refere é o da indução económica indireta. “Existem fatores estudados que multiplicam esse valor por cerca de 2,3 vezes mais para além da indução direta. Vamos a capacidade de pôr os nordestinos a estudar, de gerar dinamismo social e, também, essa capacidade de contribuir para um exercício de cidadania de todos os transmontanos e um exercício capaz de motivar toda uma região face à crise que o país está a passar”, destaca.
O presidente do instituto mostra-se “satisfeito com esse resultado”. “Só nos pode responsabilizar face ao desafio do novo quadro comunitário de apoio, de modo a conseguir o seguinte: Temos de ter orgulho das cidades que temos, da região que temos, das instituições que temos. As pessoas admitem que se vive bem em Bragança, em Mirandela. O que noto dos sete mil estudantes que temos é que a maior parte gostaria de ficar cá a trabalhar porque gosta de cá estar. É porque se vive bem que temos este número de estudantes estrangeiros.
No próximo quadro comunitário, temos de lutar para que haja lugar à criação de empresas que possam trazer, por si próprias, a criação de emprego e de indução económica. Para lá da responsabilidade que existe de manter este nível, para que a região continue a ver na sua instituição de ensino superior uma ancoragem em termos económicos diretos, há agora o desafio de, do ponto de vista prático, em termos de projetos concretos, estarmos unidos a reivindicar as áreas estratégicas em que a região se pode afirmar, conseguimos fazer o que a região necessita, que é criar emprego para que mais pessoas se fixem aqui. A região tem oportunidades”, sublinha Sobrinho Teixeira.

Publicado em ‘Mensageiro de Bragança‘.

Em defesa dos Politécnicos – Entrevista a Pedro Oliveira

Os institutos Politécnicas têm um impacto “evidentemente positivo” nas regiões em que se inserem. Eis a principal conclusão do estudo. O Impacto dos Institutos Politécnicos na Economia Local, diz, ao JL/Educação, Pedro Oliveira, coordenador do trabalho, com Jorge Cunha, que envolveu uma equipa de 17 investigadores. Encomendado pelo Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP),o estudo debruça-se sobre sete instituições – Bragança, Castelo Branco, Leiria, Portalegre, Setúbal, Viana do Castelo e Viseu -, que representam metade do sistema politécnico público, analisando os seus efeitos sobretudo na economia, mas também noutras dimensões mais dificilmente quantificáveis, como a sócio-cultural e a equidade de acesso ao Ensino Superior dos jovens dessas regiões.

Está já em curso uma segunda fase do estudo sobre a influência dos mesmos institutos na formação e educação das populações. No futuro, o trabalho será replicado para os restantes politécnicos, para que o ‘retrato’ fique completo. Porque “só poderemos tomar decisões informadas se tivermos um conhecimento científico da realidade portuguesa”, garante o prof. do Departamento de Estudo de Populações, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.

JL/Educação: Este é o primeiro estudo sobre o tema, importante para avaliar o ‘peso’ dos Institutos Politécnicos (IP) em Portugal. Como surgiu a ideia de o realizar?

Pedro Oliveira: Em 2007, eu e o prof. Jorge Cunha orientámos a tese de uma aluna de doutoramento, a Joana Fernandes, cujo tema era o impacto do lP de Bragança. Fizemos um levantamento muito profundo de toda a bibliografia sobre a avaliação do impacto de instituições de ensino nas regiões em que se inserem, e escolhemos o IP de Bragança por ser um caso muito interessante: uma instituição Isolada, distante de outros estabelecimentos de Ensino Superior; localizada numa zona de fronteira e deprimida economicamente. Depois da apresentação desse estudo, em 2010, propusemos ao Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) replicá-lo, utilizando a mesma metodologia, noutros Ip.

O estudo abrange sete dos 15 IP existentes. O que determinou esta seleção?

Numa primeira fase, propusemos três, dadas as restrições de mão-de-obra e de financiamento do projeto, mas entretanto todos os IP quiseram participar. Como não era possível realizar o estudo nos 1530 mesmo tempo, tivemos que escolher, e o critério foi termos alguns mais do Litoral (Viana do Castelo, Leiria e Setúbal) e outros do interior (Bragança, Viseu, Castelo Branco e Portalegre).

Com que intuito?

Queríamos, primeiro, ganhar experiência a trabalharem equipa, ter uma noção dos custos e do tempo que um projeto desta natureza exige, para depois avançar para os restantes IP, e então ‘colhermos’ todo o universo. Para este primeiro estudo, interessou-nos comparar estas duas realidades – o Litoral, mais densamente povoado, mais industrializado, etc., e o Interior, mais isolado, com menos indústria, etc. E verificar se o impacto dos IP no Litoral e no Interior era diferente ou se havia algo em comum.

E o que concluíram?

Em termos globais, é evidentemente positivo. E em várias dimensões. No que toca à economia, verificámos que os IP têm um impacto no PIB dos concelhos que oscila entre os 2 e os 11%, sendo mais significativo nas regiões desfavorecidas. Nestas, o IP é quase o maior empregador e a maior ‘indústria’. Além disso, concluímos que os IP têm, em todos os concelhos, um impacto importantíssimo ao nível sociocultural: trazem a organização de espetáculos, festas académicas; a presença de convidados para palestras, debates; atividades em colaboração com as autarquias. Ou seja, contribuem para a animação da vida de todas estas comunidades.

Essa dimensão já não é tão fácil ‘quantificar’…

Precisamente. Quando apresentámos o estudo no IP de Bragança, o presidente da Câmara de Mirandela contou que já tinha tido queixas dos cidadãos porque os estudantes fazem muito barulho. Sabe o que ele respondeu? “Ainda bem. É sinal que a cidade está viva.” Isto não é quantificável, e é algo muito importante para estas comunidades, em geral, envelhecidas. Alguns destes concelhos têm taxas de envelhecimento de 400% o que significa que para cada jovem há quatro idosos…

E o impacto económico, como foi ‘calculado’?

É importante realçar que o estudo seguiu uma abordagem conservadora. Ou seja, os resultados são apresentados no seu limite inferior. Não quisemos inflacionar, dizer:”Isto é tão maravilhoso que tem de ser mantido”. A intenção era olhar para a realidade de uma forma rigorosa. Aliás, é esta perspetiva que diferencia o nosso estudo daquele em que nos inspirámos, do American Council on Education (ACE): nós não contámos todos os estudantes como tendo o mesmo impacto no tecido económico.

Como assim?

O primeiro estudo do ACE considerava todos os estudantes como inipactantes. O nosso distingue o grupo de estudantes que vieram de fora, que produzem o que designámos por ‘efeito de exportação’, pois vêm gastar dinheiro na região, de tal forma que é como se estivesse a exportar um bem e a receber o seu valor; e o grupo de estudantes locais, cujos gastos são menores, porque não vão alugar quartos, nem utilizar tanto serviços como restaurantes, pois continuam a viver em casa dos pais. Ou seja, não tratámos o impacto económico de todos os alunos por igual. Determinámos, inclusive, entre os estudantes inscritos, quais iriam estudar para outra região caso o IP não existisse, o que designámos de ‘efeito de substituição de importação’, porque iriam gastar o seu dinheiro fora da região.

CONHECER A REALIDADE

Qual é, no seu entender, a importância deste estudo?

Em primeiro lugar, tivemos a ‘sorte’ de realizá-lo num momento de viragem, no ano de 2012, quando os efeitos da crise ainda não se faziam sentir tão profundamente. Queremos replicá-lo daqui a três, quatro anos, e será importante podermos comparar e analisar o impacto da crise. Depois, é relevante para se perceber que os lP não são um custo, mas um investimento. Os estudantes licenciados pelos IP, se encontrarem emprego, vão pagar mais impostos do que se tivessem só a formação secundária. porque terão salários mais elevados. Isto tem um efeito positivo para o Estado em termos de retorno. Se considerarmos todo o período de vida ativa, corresponde a dizer que o Estado investiu 5 mil, 6 mil euros na formação de cada aluno por ano e vai receber impostos numa taxa de rentabilidade que anda à volta dos 6, 8%. E há ainda um terceiro aspeto, muito importante.

Qual?

Há um número significativo de estudantes que não iriam frequentar o Ensino Superior se não existisse o IP da sua região. A presença do IP é um fator de equidade e, como sabemos, o Ensino Superior é a maior alavanca social do mundo ocidental. No fundo, verificámos que, em muitos casos, fechar o IP teria efeitos tremendos. Por um lado, a nível económico, significaria agravar uma realidade que é já muito débil (em muitos concelhos, os IP são os segundos empregadores, o primeiro normalmente é o hospital). Por outro, tornaria impossível o acesso de um elevado número de alunos ao Ensino Superior. Já para não falar do impacto negativo ao nível da vida da comunidade, dificilmente quantificável. É por isso que quer as autarquias, quer as populações defendem os IP e não querem sequer ouvir falar da possibilidade de virem a fechar.

É um estudo particularmente relevante num momento em que se fala tanto da necessidade de reorganizar a rede do Ensino Superior?

Sim, até porque existem poucos estudos sobre a questão. Foi feito um, no IP de Leiria, creio que na década de 1980, e aquele que realizámos, no lP de Bragança, entre 2007 e 2010. Pouco mais. São trabalhos muito importantes, sobretudo agora, em tempo de crise, em que há toda uma retórica do Governo que diz que há instituições de Ensino Superior a mais.

Na sua opinião, não há?

Não. Há é estudantes a menos! Portugal tem uma taxa de frequência no Ensino Superior, na faixa etária dos 18-24, que se situa na ordem dos 48%, mas em países como a Finlândia esse valor já atinge os 60, 70%. Se conseguíssemos chegar a valores dessa grandeza — e penso que devia ser esse o objetivo -, as instituições que temos não seriam a mais. Até eram a menos. Infelizmente, estamos a recuar: as dificuldades económicas estão a levar cada vez mais jovens a abandonar os estudos. E as instituições sentem-se naturalmente ameaçadas, pela crise, os cortes no financiamento, e a lógica da ‘folha do Excel’, instalada no Ministério das Finanças, que não vai a detalhes como um estudo desta natureza.

Quer dizer que é necessário um conhecimento mais aprofundado da realidade que ‘sustente’ as políticas para o Superior?

Exatamente. A maioria dos discursos que têm sido feitos são de ‘estado de alma’, retóricos, sem fundamentação científica. Não digo que o nosso estudo não tenha limitações. Mas a verdade é que chegámos a números concretos e ficámos com uma noção muito clara do impacto económico destes IR Chegámos a concorrer a uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), mas não ganhámos. Creio que a FCT tem outras prioridades, certamente defensáveis, não ponho isso em causa. No entanto, penso que tal como é importante apoiar a Ciência de nível internacional (nanotecnologia, informática, saúde, etc.), também importa fomentar a ciência sobre a realidade portuguesa, que foi o que fizemos com este estudo.

Com que financiamento o realizaram?

Os gastos foram suportados pelos sete IP e pelos próprios investigadores, que se disponibilizaram a trabalhar voluntariamente, e em horas extra. Foi um esforço enorme.

Gostava que este motivasse outros estudos sobre o impacto das instituições do Ensino Superior?

Era importantissimo, quer fossem feitos por nós ou por outros investigadores. O que interessa é que nos debrucemos sobre a nossa realidade porque só poderemos tomar decisões informadas se o fizermos.

Estão em discussão, até ao fim deste mês, as ‘linhas de Orientação Estratégica para o Ensino Superior’, recentemente divulgadas pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC). Como vê este documento?

Sou multo crítico em relação à política do atual Governo. E agora não falo enquanto autor do estudo, mas dando a minha opinião pessoal. E uma política de destruição do Ensino Superior. O documento das ‘Linhas de Orientação Estratégica’ é um verbo de encher. Não avança nada de concreto, aliás, diz coisas perfeitamente quixotescas como, por exemplo, que as instituições têm que promover cursos de acordo com os empregos da região. Isto é completamente insensato.

Porquê?

Tem a ver com uma questão de prioridades. Para o Governo, a prioridade da Educação deve ser a empregabilidade. No meu entender, a perspetiva de um emprego é importante, mas em primeiro lugar deve estar a formação e a cidadania das pessoas. Além disso, a questão da empregabilidade tem sido mal colocada.

Em que sentido?

Pegando no exemplo da Engenharia Civil: há alguns anos, havia imensas vagas, neste momento, o curso está cheio e não há emprego. Isso quer dizer que não tem valor económico? Ou seja, um curso que, num determinado momento, é atrativo, deixa de o ser porque não há emprego, mas tem valor na mesma. E se a empregabilidade for o único critério, provavelmente não teremos físicos, nem filósofos, nem cientistas sociais. É pouco comum em Portugal, mas acontece muito no Reino Unido, por exemplo, haver licenciados em História ou Filosofia a trabalhar em empresas industriais ou de serviços financeiros. Aquelas pessoas têm vantagens, conhecimento, e podem atualizá-lo.

Outro aspeto focado no documento é a necessidade de uma maior articulação entre as instituições de Ensino Superior e o tecido socioeconómico da região. Nos sete IP analisados verifica-se esta “articulação”?

Sim, e de uma maneira muito profunda. Até porque todos estes IP se debatem com a diminuição do número de alunos. Por isso, estão muito ligados às indústrias locais; procuram animar outras regiões; criam protocolos com empresas. Claro que é muito mais evidente no Litoral, mas no Interior também existe esse ‘esforço’. Nomeadamente, o desenvolvimento de uma dimensão de serviço social. Não há um presidente que se sente descansado na sua cadeira sem pensar o que pode fazer para contribuir para a região em que se insere. É quase um imperativo moral, ainda mais neste momento em que a crise é tão forte. E todos estão a tentar alargar a taxa de frequência. Alguns estão a estabelecer acordos com países como China e Angola, justamente por terem uma determinada capacidade instalada e verem que os estudantes portugueses, por dificuldades económicas, estão a deixar o Ensino Superior.

Em que medida pode este estudo constituir um contributo para as reformas que se avizinham no Superior, designadamente para o novo modelo de financiamento?

Se o financiamento fosse feito numa base plurianual, poderia dar alguma informação, mas muna base anual, é muito difícil. Independentemente disso, não sei se a informação que o Governo retirará do estudo será a fundamental. Veja-se o caso do IP de Portalegre: é o mais pequeno e não cresce mais porque fica numa zona muito pouco povoada, em que as famílias têm muitas dificuldades económicas. Se o novo modelo de financiamento for em função do número de alunos, da empregabilidade, etc., só vai afundar as instituições mais desfavorecidas. Neste sentido, o estudo pode até ser contraproducente e conduzir a uma perversão da forma de financiamento. Um modelo com base nestes indicadores, que não vá mais fundo na compreensão da realidade, das suas causas e efeitos, será ruinoso. Fechar os IP do Interior seria condenar os jovens a uma grande dificuldade de acesso ao Ensino Superior e, consequentemente, tornar o sistema cada vez mais elitista.

Publicado em ‘Jornal de Letras Artes e Ideias – Segunda-feira, 02 de Junho de 2014’.

Por cada euro que Estado investe, politécnicos podem gerar oito vezes mais

Por cada euro que o Estado investe nos Institutos Politécnicos estes chegam a gerar uma atividade económica de valor oito vezes superior, indica um estudo que avalia o impacto económico regional em sete destas instituições de ensino superior.
Os números constam do estudo académico “O impacto dos institutos politécnicos na economia local”, feito a pedido do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) e que analisa o impacto e o retorno do dinheiro investido pelo Estado nas instituições, assim como o dinheiro gasto por docentes, alunos e funcionários nas regiões onde se localizam as escolas onde estudam ou trabalham, pertencentes aos institutos de Bragança, Castelo Branco, Leiria, Portalegre, Setúbal, Viana do Castelo e Viseu.
De acordo com as conclusões apresentadas, é em Leiria que se verifica um maior impacto na atividade económica gerada por cada euro investido pelo Estado português, com um retorno de 8,07 euros.
O Instituto Politécnico (IP) de Leiria é também aquele que contabiliza um maior número de alunos, docentes e funcionários. Insere-se também numa região, indicam os dados apresentados no estudo, que, em comparação com as sete em análise, tem um dos mais baixos índices de envelhecimento, a mais baixa taxa de analfabetismo e um dos mais elevados índices de poder de compra.
O menor impacto regista-se no politécnico de Castelo Branco, onde, ainda assim, o retorno é quase três vezes superior ao investimento do Estado: por cada euro gasto pelos cofres públicos gera-se uma atividade económica de 2,63 euros na região desta instituição.
Analisando o Produto Interno Bruto (PIB) de cada região, é em Bragança que a presença do politécnico tem uma influência maior na geração de riqueza pela região, com a instituição de ensino superior a ter um peso de cerca de 11% para o PIB local.
É no IP de Setúbal que o peso que a instituição representa para o PIB da região onde se insere é menor: corresponde apenas a 1,71% da riqueza criada. Em Viana do Castelo a percentagem é também baixa, de apenas 2,06%.
Mas nas restantes regiões varia, sensivelmente entre os 4,5% e os 6%, valores mais significativos para a riqueza gerada na região.
Os autores do estudo apontam ainda que os dados recolhidos parecem “evidenciar a existência de uma relação linear entre o impacto direto [da instituição para a região onde se encontra] e o número de estudantes de cada instituição”, apresentando valores que estimam um impacto direto (gastos de docentes, funcionários e alunos) de nove mil euros por cada aluno, e um impacto total (que contabiliza também a atividade económica gerada) de 16 mil euros.
Em termos totais, os sete IP têm um impacto direto de aproximadamente 270 milhões de euros e um impacto total de 460 milhões de euros.
Os dados foram recolhidos com a aplicação de inquéritos a docentes, funcionários e estudantes.
“Para cada Instituto foi selecionada uma amostra aleatória de cada corpo constituída por 400 alunos, 80 funcionários e 100 docentes”, explica-se no estudo quanto à metodologia utilizada, acrescentando-se que, apesar de taxas de resposta muito variáveis, “a amostra recolhida é, mesmo assim, bem aproximada da população respetiva de cada Instituto”.

Publicado em ‘Porto Canal‘.