“O tio Zé Jorge e a sueca”. Crónica de um transmontano cosmopolita

“Nos últimos dias Bragança tem sido apontada como a cidade do “fim do mundo”, “atrás do sol-posto”, “tradicionalista” “intolerante” (…). Por um lado ainda bem porque é uma boa maneira de dizer a quem não conhece esta parte de Portugal, que dê cá “um saltinho”. Tudo por causa de uma marcha de orgulho LGBT que vai acontecer na cidade.”
Nasci, (na casa de cima da minha avó) cresci e estudei numa aldeia transmontana até aos dez anos. A escola começava às nove da manhã e terminava às três da tarde. Éramos poucos. Somando as quatro turmas seríamos perto de 15, todos numa sala. Acredito que aprendemos lá, principalmente com a professora São Gama, as principais bases do conhecimento e de preparação para a vida. Mas os melhores ensinamentos chegavam depois das três. Mal ela dizia “podem sair”, corríamos que nem desalmados, caminho abaixo, num berreiro libertador que se escutava em toda a pequena aldeia.
Alguns iam para casa (tínhamos entre 6 e dez anos). Outros, como eu, espreitávamos no fundo das escadas em curva da casa do ti Zé Jorge para ver se ele estava lá. Era sagrado! Se não estivesse lá, pagava-as a bola. Jogávamos desenfreadamente naqueles caminhos apertados até que o sol se fosse ou até quando alguma mãe chamasse por nós. Quando o ti Zé Jorge lá estava, a história era outra! Ou melhor, as estórias.
O ti Zé Jorge era uma homem pequeno em estatura mas duma vivência enorme. Tinha sido contrabandista e só isso já dava “pano para mangas” a muitas passagens mirabolantes que nós escutávamos sem pestanejar. As escadas, em curva, eram o nosso anfiteatro natural. As fugas aos carabineiros (Guardia Civil espanhola) e aos Fiscais portugueses inebriavam-nos o espírito da aventura. Imaginávamos tudo e entrávamos nas estórias contadas com uma mestria de avô paciente. O ti Zé Jorge não tinha estudado mas conhecia a vida de cor. Gostava do circo e de um bom cozido à portuguesa. Ria-se quando desembainhávamos os livros e lhe dizíamos que a terra era redonda. Não acreditava! A ida do homem à lua era, para ele, uma invenção dos americanos.
Mas a maior invenção do ti Zé Jorge foi ensinar-nos a jogar às cartas. Ensinou-nos tudo o que sabia. Os jogos todos. O “burro de pé”, a “bisca dos nove”, o “estenderete”, todos inofensivos para crianças e também os jogos para adultos (era o que nós queríamos para nos sentirmos grandes), a “batota”, o “chincalhão” e a “sueca”, principalmente a sueca “que foi inventada por mudos”, dizia, talvez para nos manter calados. Não importava, nós adorávamos! Ensinou-nos que para ganhar tínhamos que ter respeito pelas cartas, por todas! O duque, de qualquer um dos 4 naipes, pode valer mais do que um ás, mesmo sem ser trunfo. Depende da maneira como o jogamos. E que qualquer “mão”, sem reis, biscas, damas, valetes ou ases, pode ganhar o jogo. O respeito pelas cartas todas do baralho e pelas dez do adversário era a essência para sabermos “a mão” de cada um e ir a jogo, sempre com astúcia, para ganhar o jogo. Ensinou-nos tão bem que no fim daquele ano já lhe ganhávamos. Nunca esquecerei a paciência do ti Zé Jorge e o respeito pela “sueca”. Aqueles dias com ele foram uma verdadeira “escola” para nós.
Lembrei-me disto porque nos últimos dias Bragança tem sido apontada como a cidade do “fim do mundo”, “atrás do sol-posto”, “tradicionalista” “intolerante” e com mais uma série de adjetivos ligados a uma suposta interioridade geográfica, longe do conhecimento, que, me parece, estarem única e simplesmente ligados à ignorância de quem não conhece e fala desse desconhecido. Por um lado ainda bem porque é uma boa maneira de dizer a quem não conhece esta parte de Portugal, que dê cá “um saltinho”. Tudo por causa de uma marcha de orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais) que vai acontecer na cidade.
A cidade e as pessoas são exatamente como todas as outras em qualquer parte do mundo “só que melhores” dizia-me há dias um estudante esloveno que está no Politécnico da cidade. Faz parte da maior comunidade de estrangeiros que existe no país, formada por gente de mais de 65 nacionalidades. Uma multiculturalidade que vai do Brasil à Síria, da China à Polónia, Rússia, Colômbia, França, Tunísia, Marrocos, África do Sul ou Cabo Verde, (são mais de 65 países, como disse). No IPB já há turmas onde muitas vezes não está um estudante português. A cidade, para eles, que não têm estigmas em relação à interioridade, é a primeira a contar da Europa e a mais interessante para estudar e viver. É também no Politécnico que existe um dos poucos lugares do mundo onde a Bíblia e o Corão estão lado a lado e onde se realizam celebrações ecuménicas num ambiente de paz.
A cidade é uma das mais antigas do país. Foi fundada por uma princesa da Arménia e um conde Francês. Por aqui passaram e viveram grande parte dos povos do norte da Europa e de todo o mundo. Visigodos, zoelae, árabes, romanos e muitos judeus ao longo de toda a história. Os transmontanos de Bragança são únicos porque têm no sangue muitos sangues! E é por isso que são rijos mas de alma boa. E respiram um oxigénio puro, comem o que é mais natural e outros são vegetarianos. Há bons e maus. Há totós e nerds. Há adeptos de todos os clubes e cores e mais recentemente há muitos do Desportivo de Bragança. Há quem goste do Ronaldo e há quem goste do Messi. Há uma rua de museus e outra torta que é Direita. Há homens excelentes e mulheres bonitas. Há butelos e caretos. Há muita gente com muito orgulho de ser de Bragança. E há, sempre que as pingas da chuva se cruzam com o sol, um enorme e único arco-íris por cima de toda a Sanábria que todos já viram e apreciaram.
Nunca tudo estará bem para todos mas a existência é isso mesmo. Nem aqui nem no fim do mundo, seja lá onde for. Para mim a “sueca” do ti Zé Jorge ensinou-me que a vida é um jogo onde todos podemos ser todas as cartas e ser jogados num tabuleiro conjunto. Uns dias com um valor, outros com outro. Mas sempre com o respeito que todos merecemos. Esse é o trunfo! A sorte ou o destino ditarão a “mão” de cada um.
PS: Se fosse vivo, o ti Zé Jorge haveria de ter gostado vir à cidade comer um cozido à portuguesa.

Publicado por: “TSF Rádio Notícias”